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Na mesma semana em que criminalizou adversários, base de Douglas Ruas age com intimidação e controle de território

23 de ago.
4 min de leitura

Enquanto candidato do PL acusa opositores de conluio com facções, sua própria base política impõe monopólio de propaganda com violência e financiamento ao crime


Por Rodrigo Melo


Dimas faz vídeo denunciando violência eleitoral/Foto: reprodução
Dimas faz vídeo denunciando violência eleitoral/Foto: reprodução



Na segunda-feira, 17 de agosto, o candidato do PL ao governo do Rio de Janeiro, Douglas Ruas, afirmou durante sabatina na TV Record que "só faz campanha dentro de comunidade quem tem ligação com o crime organizado".


Na mesma semana, um vídeo enviado ao candidato a deputado federal Dimas Gadelha (PT) e por ele denunciado em sua página no Instagram mostrou exatamente o oposto: um morador de São Gonçalo teve o adesivo de Gadelha arrancado do próprio carro por um desconhecido, sob a justificativa de que, naquela rua — uma área dominada pelo crime —, só podia circular material dos candidatos do grupo político do prefeito Capitão Nelson (PL), de seus filhos, Nelsinho e Douglas Ruas e do deputado Altineu Côrtes.



Também na mesma semana, uma candidata a deputada federal de outro espectro político, de direita, denunciou que seu grupo foi impedido de fazer campanha no bairro Porto da Pedra, em São Gonçalo. Dias depois a candidata voltou ao bairro, fez campanha, e retirou a denúncia após prometer divulgar o nome do político da região que supostamente a proibiu de caminhar na localidade.


A declaração de Ruas tenta associar a presença de adversários em comunidades a um suposto conluio com facções. Ao citar na mesma entrevista o presidente Lula e o ex-prefeito Eduardo Paes, que fizeram campanha no Complexo do Alemão em 2022, o candidato do PL questionou: "Como eles entraram lá? Essa é a pergunta que o cidadão de bem tem que fazer".


O que os vídeos e relatos da semana mostram, no entanto, é que quem impõe, na prática, o que pode ou não circular nos territórios dominados pelo crime, pelo menos em São Gonçalo, é a própria base política de Ruas — agindo como dona do bairro, coibindo com violência qualquer manifestação contrária e cerceando o direito mais elementar do eleitor.


A contradição se aprofunda com o relato de um coordenador eleitoral que pediu anonimato. Segundo ele, a situação piorou nos últimos quatro anos. Antes restrito ao interior de favelas, o domínio agora se estende a bairros inteiros em diversos pontos de São Gonçalo.


Em sua região, um traficante admitiu receber mesada de políticos ligados ao governo — valores que chegam a R$ 50 mil — para que apenas o grupo oficial atue na localidade.


"Está cada vez mais difícil fazer uma atividade de campanha e caminhar livremente em São Gonçalo sem receber assédio ou ameaças nestes locais (dominados pelo crime). Tá tudo aí pra todo mundo ver. A nossa esperança é uma ação dura do MPE, do TRE e da polícia para coibir esse tipo de coisa. As pessoas, na prática, estão impedidas de se manifestar e de escolher livremente seus candidatos. Isso é a morte da democracia", lamenta o coordenador.


Os dados confirmam a dimensão do controle territorial do crime em São Gonçalo. Segundo a Polícia Militar, todas as comunidades do município são atualmente controladas pelo Comando Vermelho. Entre janeiro e julho de 2025, o 7º Batalhão removeu 1.820 toneladas de barricadas em 721 pontos de bloqueio instalados por criminosos — marcas de território que delimitam onde o Estado não entra e onde a vontade do crime prevalece sobre a do cidadão.


Em escala maior, o Mapa Histórico dos Grupos Armados do Rio de Janeiro, produzido pelo GENI/UFF e pelo Instituto Fogo Cruzado, revela que 4 milhões de pessoas na Região Metropolitana vivem sob controle ou influência de grupos armados — 34,9% da população. O Comando Vermelho controla 150 km² de território no estado, onde vivem 1,6 milhão de pessoas. A área sob domínio armado cresceu 130,4% entre 2007 e 2024.


O próprio Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro reconheceu a gravidade da situação ao alterar 66 locais de votação em 20 municípios, afetando cerca de 188 mil eleitores, para coibir a influência do crime organizado e de milícias no processo eleitoral. Entre as cidades afetadas está São Gonçalo, que deslocou zonas eleitorais do Salgueiro para o São Gonçalo Shopping.


A denúncia de Dimas Gadelha foi encaminhada ao MPE, que deve investigar o caso.


Canais de denúncia


Qualquer cidadão que se sinta coagido, ameaçado ou que presencie irregularidades eleitorais pode registrar sua denúncia nos seguintes canais oficiais:


  • Aplicativo Pardal (TSE): disponível para Android e iOS, permite o envio de denúncias com indícios de práticas indevidas ou ilegais no âmbito da Justiça Eleitoral.

  • Ministério Público Eleitoral: por meio da Sala de Atendimento ao Cidadão (telefone: (61) 3105-5100) ou pelo aplicativo MPF Serviços.

  • Disque 100 (Direitos Humanos): gratuito, anônimo e disponível 24 horas por dia, recebe denúncias de violações de direitos humanos, incluindo violência política.

  • Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral (SIADE): canal anônimo do TSE para comunicar conteúdos falsos, enganosos ou fora de contexto que afetem a integridade das eleições.

  • Disque 1491 (SOS Voto): canal do TSE para denúncias de crimes eleitorais e desinformação.

  • Zonas Eleitorais: o contato pode ser obtido na página do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do respectivo estado ou pelo Autoatendimento Eleitoral


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