O que leva estudantes às ruas pela vitória de Lula no segundo turno?
Mobilização iniciada na UFF, em Niterói, espalhou-se pelo país. Temor de retrocessos democráticos, perda de direitos e novos cortes na educação ajuda a explicar a reação ao avanço de Flávio Bolsonaro
Por Cláudio Figueiras

Na noite de 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno da eleição presidencial, estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) saíram às ruas de Niterói contra a possibilidade de Flávio Bolsonaro (PL) chegar à Presidência da República. A manifestação, organizada por estudantes e pelo Centro Acadêmico Evaristo da Veiga, da Faculdade de Direito, ganhou rapidamente as redes sociais e foi seguida por atos em universidades de diferentes regiões do país.
O movimento começou como reação ao resultado das urnas, mas ganhou uma dimensão mais ampla. A defesa da democracia, das liberdades individuais, dos direitos sociais e da universidade pública passou a ocupar o centro das manifestações. Para muitos participantes, a reeleição de Lula (PT) representa uma forma de impedir o retorno do bolsonarismo ao comando do governo federal.
A preocupação aparece nos relatos colhidos pela imprensa. Em Palmas, no Tocantins, um participante afirmou à Agência Brasil que o ato não se resumia ao apoio a Lula, mas envolvia a defesa da democracia e dos direitos de grupos historicamente discriminados. Em Brasília, uma estudante de Direito associou sua participação à necessidade de preservar os direitos humanos e a valorização da universidade pública.
A memória de quatro anos de Bolsonaro
A geração que hoje ocupa as universidades acompanhou, durante sua formação, os conflitos entre o governo Jair Bolsonaro e as instituições de ensino superior. Entre 2019 e 2022, universidades federais enfrentaram bloqueios orçamentários, dificuldades de custeio e restrições que atingiram bolsas, pesquisas e serviços essenciais ao funcionamento dos campi.
O período também foi marcado por ataques verbais a universidades, professores e pesquisadores, além de embates entre o Executivo e instituições democráticas. A tentativa de golpe de Estado após a derrota eleitoral de 2022, pela qual Jair Bolsonaro foi posteriormente condenado, acrescentou um componente institucional à memória daquele governo.
Esse histórico ajuda a compreender por que a candidatura de Flávio desperta apreensão entre os estudantes mobilizados. Embora o senador dispute sua própria eleição, ele representa a continuidade política de um grupo que governou o país durante quatro anos e mantém a defesa do legado de Jair Bolsonaro como elemento central de sua identidade.
As manifestações expressam, portanto, preocupações que ultrapassam a alternância entre dois partidos. O que está em discussão, para esses estudantes, são as garantias institucionais e as políticas públicas que consideram ameaçadas.
Educação volta ao centro da disputa
A defesa do ensino público é uma das reivindicações mais concretas do movimento. Na manifestação de 7 de outubro, que reuniu milhares de estudantes no Centro do Rio, os participantes defenderam mais investimentos na educação, a manutenção do programa Pé-de-Meia e a gratuidade do ensino.
A preocupação ganhou novo elemento com a divulgação de propostas de ajuste fiscal discutidas pela equipe econômica de Flávio Bolsonaro. Entre as medidas examinadas está a desvinculação dos gastos federais com saúde e educação da arrecadação, permitindo que essas despesas passem a ser corrigidas apenas pela inflação.
A mudança alteraria uma garantia estabelecida pela Constituição de 1988. Atualmente, o governo federal deve destinar à educação pelo menos 18% da receita de impostos, consideradas as transferências constitucionais. Sem essa vinculação, o financiamento mínimo deixaria de acompanhar automaticamente o crescimento da arrecadação.
Para universidades e escolas públicas, a consequência seria a possibilidade de receber menos recursos do que receberiam pelas regras atuais. A proposta integra um ajuste fiscal que a equipe econômica do candidato estima em até R$ 250 bilhões e pretende negociar caso ele vença o segundo turno.
Da UFF para as ruas do país
A mobilização iniciada em Niterói ganhou dimensão nacional em poucos dias. No Rio, estudantes universitários e secundaristas caminharam da Candelária até a Cinelândia. Manifestações também ocorreram em São Paulo, Brasília, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul e outros estados.
A União Nacional dos Estudantes (UNE) declarou apoio à reeleição de Lula e passou a organizar uma agenda nacional de manifestações até o segundo turno, marcado para 25 de outubro. A Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) também convocou a comunidade acadêmica a se mobilizar em defesa da ciência, da democracia e da soberania nacional.
O movimento reúne estudantes com diferentes formas de participação política. Há militantes de organizações partidárias, integrantes de entidades estudantis e jovens que aderiram aos protestos por iniciativa própria. A diversidade não elimina o objetivo eleitoral comum, mas ajuda a explicar por que a mobilização ultrapassou os espaços tradicionais da campanha.
A democracia como preocupação central
A defesa das liberdades democráticas aparece nas faixas, palavras de ordem e declarações dos manifestantes. No Rio, cartazes rejeitaram a ditadura e reivindicaram a soberania brasileira. Também houve críticas à aproximação da família Bolsonaro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A apreensão ganhou contornos ainda mais concretos após a divulgação de ameaças contra a UFF. A universidade encaminhou à Polícia Federal mensagens que mencionavam a possibilidade de um ataque incendiário ao campus e solicitou reforço na segurança. A autoria e a credibilidade das ameaças dependem de investigação.
Para os participantes dos atos, a eleição de 25 de outubro envolve questões que vão além das propostas econômicas dos candidatos. A defesa das instituições, a preservação dos direitos e a liberdade de manifestação aparecem como motivos recorrentes para a mobilização.
A reação estudantil também recupera uma tradição brasileira de participação da juventude em momentos decisivos da vida política, da resistência à ditadura militar às manifestações pela redemocratização e pela educação pública.
O movimento que começou na UFF revela uma característica importante deste segundo turno: parte dos estudantes que defendem a vitória de Lula está mobilizada não apenas por identificação com o presidente, mas também pela preocupação com o que uma nova administração bolsonarista poderia representar para seus direitos, suas universidades e suas liberdades.
É essa combinação de memória recente, reivindicações concretas e apreensão com o futuro que ajuda a explicar a rapidez com que os protestos saíram de Niterói e alcançaram outras regiões do Brasil.
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