O voto não é camisa de time
Por Mira Pimentel

Imagine alguém que torce tanto por um time que, mesmo vendo o jogador fazer gol contra, continua aplaudindo. Parece absurdo, não é? Pois é assim que muita gente tem tratado a política: como torcida organizada, em que o importante não é o que se faz, mas quem faz.
Também precisamos falar da fé. A espiritualidade pode ser fonte de amor, solidariedade, consolo e compromisso com o próximo. Entretanto, quando a fé é transformada em palanque, o púlpito corre o risco de se tornar instrumento de disputa eleitoral. O fiel deixa de ser convidado a refletir e passa a ser conduzido a obedecer. O debate político se veste de batalha espiritual, e o adversário deixa de ser alguém com ideias diferentes para se tornar um inimigo a ser combatido.
Estamos diante de escolhas que podem repercutir por muitos anos.
Direitos trabalhistas, políticas tributárias, saúde, educação, proteção social e respeito às instituições não são assuntos distantes da vida cotidiana.
Eles aparecem no preço das compras, no contracheque, na escola dos nossos filhos, no tempo que temos para descansar e na segurança com que atravessamos o futuro.
Por isso, meu chamado não é para que ninguém entregue sua consciência a um nome, a uma sigla ou a um líder. É para que cada eleitor pesquise, compare propostas, examine os históricos dos candidatos, procure fontes confiáveis e verifique o que foi efetivamente realizado.
Que não votemos por indução, por medo, por raiva ou por promessas que dispensam comprovação.
Que não permitamos que os que vierem depois de nós contem a história de uma geração enganada porque preferiu o conforto de acreditar à responsabilidade de conhecer. Que não sejamos lembrados como aqueles que confundiram fé com política, popularidade com competência ou lealdade partidária com compromisso democrático.
O voto é livre, mas a liberdade exige consciência. E a consciência exige trabalho: ler, ouvir, perguntar, duvidar, verificar e, finalmente, decidir.
No dia 14 de outubro, o Senado aprovou a proposta que prevê o fim da escala 6x1. É uma discussão importante para quem trabalha seis dias e tem apenas um para descansar. Afinal, trabalhador não é máquina. Tem família, sonhos e direito de viver além do trabalho.
O atual governo também adotou a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil por mês. São medidas que precisam ser conhecidas e avaliadas. O Partido dos Trabalhadores traz no nome um compromisso com os trabalhadores. Cabe ao povo verificar se as ações correspondem a esse compromisso.
Mas política não se faz de olhos fechados. A Constituição deve ser respeitada, assim como as autoridades legitimamente constituídas, sem abrir mão do direito de criticar e cobrar. Governos passam; os direitos do povo precisam permanecer.
Estamos diante de escolhas que podem proteger direitos ou colocar conquistas em risco. Por isso, antes de votar, pesquise. Compare os candidatos. Veja o que fizeram, não apenas o que prometem.
Não entregue seu voto por medo, por influência ou por uma promessa de salvação. Messias, na fé, é uma coisa; político é outra. Nenhum candidato deve ser colocado acima da crítica.
O voto é seu. A consciência também. Use os dois com responsabilidade, porque quem escolhe sem conhecer corre o risco de descobrir tarde demais que foi enganado.
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Mira Pimentel, cronista









































































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