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Aninhagato da Boioa, por Erick Bernardes


Imagem Pixabay

Aninha trabalhava desde o raiar do dia, até o crepúsculo anunciar o fim das obrigações que a madrasta e as irmãs adotivas lhe impunham. Essa história poderia começar assim, tal como uma cinderela à moda brasileira. Mas não, o caso é extremamente diferente, nada de ingenuidades e sonhos de casamento do tipo literatura europeia. A narrativa é de fato mais verossímil e interessante — e ocorreu aqui mesmo, em SG, na região denominada Boioa, um sub-bairro de Itaoca.


A jovem Aninha cresceu faceira, bem acostumada com os galanteios da rapaziada da região da Boioa (ou boiúna, no falar de alguns). Para quem não sabe, a localidade em questão fica para o interior da ilha, um tanto quanto afastada das margens praianas. Boioa possui esse nome devido a uma adaptação da palavra tupi Mboa'una, cujo real significado quer dizer cobra preta. No entanto, Ana Lenari (a Aninha, para os íntimos), neta de italianos outrora estabelecidos por lá, gostava mesmo é das praias da ilha. Sim, amava desfilar seu corpo bronzeado, usando biquínis miúdos, se comparados aos das demais moças locais. Por vezes, passava algum tempo na Caieira, noutros turnos dava as caras nos bailes de São Gabriel, mas se agradava mesmo é do agito das Praias da Luz e de São João, isso sim.


Ana namorava bastante, não se incomodava com as fofocas surgidas e abraçou a alcunha zombeteira que ganhou. Apelidaram-na de Aninhagato, referência ambígua: aninhar-se aos gatos ou diminutivo de Ana, conjugado ao fato da personagem gostar de peixes, tal como os felinos. Jogo de linguagem maldoso, todavia ela nem ligou pra isso, se divertia, gargalhava com o duplo sentido do apelido. Aconteceu, certa vez, de um dos seus namorados, João Amaral, ter o coração maroto flechado pelo cupido, mesmo depois de Aninhagato se casar com um certo sujeito cantador. Sim, pois é. A moça encontrou no músico percussionista Rodolfo Mariano - também ele nascido na ilha — o varão a quem chamou de amor eterno e juntou as escovas. Mas o leitor sabe como funciona a natureza biológica, no que concerne a senhores sedentários e com histórico de obesidade na família, não é mesmo? Sim, exatamente, de galã das novinhas nos bailes de SG, Rodolfo se tornou gordão e diabético. Resultado? Não conseguiu mais andar com o mesmo viço de outrora, devido ao inchaço nas pernas já bastante arroxeadas. Aninha se manteve fiel, continuou a amar o marido e ex-músico de pagode e samba comercial. Contudo, vez ou outra, caminhava bastante até a praia de São Gabriel, no intuito de conseguir o almoço do dia. Exato, obviamente se não fosse a canoa do ex-namorado João Amaral a chegar sortida de pescado fresco, a viagem seria sem ventura.


Mas a vizinhança não perdoou. E cantou assim, em homenagem a Ana Lenari de Itaoca:


“Aninhagato nasceu na Boioa,

Menina esperta jamais fez coisa à toa.

Cresceu sagaz para os lados de lá,

Faceira e amante, sabe bem é ‘namorá’.


João Amaral encosta a canoa,

Aninhagato debruça na proa:

Me dá um bagre, me dá um acará

O meu Rodolfo não pode mais ‘andá’”.


Viu aí, caro leitor? Isso sim é literatura sem confeitos, nada de narrativas inócuas e mal explicadas do tipo Cinderela. História de verdade nós temos aqui, na região da Boioa, na Ilha de Itaoca.

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.





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