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As marcas do passado no bairro Barracão, por Erick Bernardes

O bom de ser um cronista apaixonado pelo município de São Gonçalo é que, não raro, me deparo com histórias que me parecem saídas de filmes de época. Algumas narrativas trazem aquele aspecto lendário e típico das invenções populares, mas outras evocam sentimentalismos familiares de um passado não muito distante.


Uma dessas narrativas acerca da tradição oral gonçalense me foi facilitada pela educadora Lidiane, numa conversa informal, mas não menos importante e digna de registro aqui em nossa página. Ela me apresentou o seu solícito pai, o senhor Jone. Ficou curioso? Pois bem, agradeça à educadora, já que me refiro ao bairro Barracão, lugar onde cresceram seus antepassados e cujo nome já dá uma pista ao leitor atento, evidenciando enfim contações de causos de herança familiar.

Houve um tempo, de quando um figurão imponente chamado Diaz André mantinha valorizada fazenda que se alargava do bairro Sacramento ao Pacheco, e lá chamavam uma pequena senzala de barracão. Bem, reconheceríamos de antemão certo tipo de história colonial simples, se o pai da Lidiane não fosse considerado um arquivo em forma de gente. Ademais, confirmarmos o significado original da palavra senzala (senza/ala) da língua italiana: sem compartimentos. Outros dicionários afirmam que o termo decorre do idioma quimbundo: “sanzala”, oferecendo assim o significado de “povoado”. Entretanto, equívocos à parte, não é isso mesmo o que barracão quer dizer? Sim, correto, as duas versões se afinam. Local fechado e povoado, mas sem subdivisões. Muitos dos nossos antepassados negros amontoados ali. Triste, mas necessário recordar. E assim o sábio Jone me confidenciou:


— Não sei se é verdade, confesso. Contaram desse jeito pra mim. Afirmavam que, em outra época, esse tal barracão (onde hoje existe um posto de saúde) servia para os escravizados dormirem e se protegerem dos animais selvagens.


Importante então abrirmos parênteses aqui e reconhecer, caro leitor, as curiosidades extravasam a explicação do registro territorial de uma modesta e extinta senzala do Diaz André e tomam como foco a vida do nosso nostálgico narrador. Sabe-se que, onde funciona agora o tal posto de saúde (funciona?), abrigava outrora uma praça de movimentação significativa. E é sobre o mesmo assunto a nossa conversa com o pai da Lidiane. Ouçamos esse senhor amigo, então:

— Não recordo como era muito tempo antes. Mas lembro bem da construção da Praça Geremias de Matos Fontes, inaugurada em 1969. Nem sei o motivo de ter isso na memória. Lembro de coisas dali, festas juninas e quermesses não faltavam. Saudades! Algodão doce, suspiro, os quitutes da dona Lourdes. Coisa boa, simples e marcante. Tinha um campo de futebol perto de casa. O bairro vivia cheio de visitantes devido aos campeonatos esportivos. Ônibus aos montes traziam equipes e torcedores. Futebol de várzea, temporada gostosa! Verdade, o armazém de titia, a famosa Dona Nilda, constituiu o “supermercado da época”. Vendia de prego a presente de casamento; de linha de retrós ao bacalhau da Semana Santa. No entanto, mais importante mesmo foi o meu posto telefônico inaugurado lá no Barracão. Tinha cabine de madeira e até banquinho confortável em oferecimento ao usuário do aparelho. Coisa chique ter um telefone daquele pra ofertar aos clientes. Eu enchia o peito e sorria, fazia a vida com o botequim que vovô me deu. Havia ainda uma família de turcos donos de um armarinho ao lado do armazém. Sobrenome diferente, era a família Abuzzaid, depois fiquei sabendo que viraram nome de rua. A dona Yolanda ficou famosa na cartografia de São Gonçalo. Quem diria!


Pois bem, necessário arrematar essa história. Eu já havia preenchido o bloco de notas do celular com bastante informação legal. “Missão cumprida, fiquei feliz!”. O senhor Jone, nosso atencioso narrador, me prometeu trazer mais assunto. Melhor não, necessário finalizar: “Não precisa Sr. Jone. Não precisa, obrigado”.

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.


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