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Boaçu: entre cobras e ortografias, por Erick Bernardes

Começar a história de um bairro pertencente ao município de São Gonçalo, citando um problema ortográfico é, no mínimo, algo inusitado — e isso aconteceu sobre o Boaçu.

Sabe-se que, ao implicarem com os dois “SS” da língua portuguesa, tal como um par de cobrinhas a correr esse rio normativo chamado gramática, em detrimento do “Ç” mais certinho, jamais imaginariam a confusão que viria se criar. Existe placa de rua escrita de um jeito, frente de ônibus escrito de outro, enfim, equívocos sem conta acerca da norma. Pois é, ortografias à parte, conta-se que, ao obrigarem o tabelião a mudar a nomenclatura do lugar, os homens esqueceram as pessoas e negligenciaram de vez a conservação pública do espaço. Descaso, isso é o que nos parece haver. Bem, mas há quem se preocupe com o fato de ter havido, no passado, jiboias e sucuris gigantes nas redondezas do Boaçu (ou será Boassu?). Daí ter surgido o registro de raiz tupi do bairro. Isso mesmo, “m'boiassú ou açu”, chegando até a batizar o rio famoso da cidade. Verdade, quem nunca admirou as garças pernaltas no Rio Imboaçu lá no Bairro Zé Garoto também?

Os invejosos chamarão de valão o rio que corta a Praça Estephania de Carvalho, porque, bem antes de se lançar propriamente pelo bairro Boaçu, as águas poluídas decidem serpentear a pracinha famosa. Mas não, de modo nenhum isso deve ser motivo para os seus moradores continuarem nesse estágio primitivo de gestão pública em que os governantes os deixaram, não é mesmo? Historicamente são problemas maiores. Buracos na rua, segurança pública precária, saúde agonizante, ah!, isso político nenhum quer mudar. Inaceitável, negligenciaram o bairro em detrimento da recusa ao dígrafo SS. Agora, é Boaçu, mais correto na concepção dos homens, sem esquecer o sinal de cedilha submisso, a imitar a cobrinha retorcida embaixo da letra. Impossível se livrar da ideia original das serpentes. Jiboias e sucuris não se consegue ver mais. Será? Todavia, os problemas de gestão se esticaram: se correr o bicho pega, se ficar... já sabe. Chamam a isso de adequação, coisas de Brasil, ideias peçonhentas, envenenamento social. Desvio de atenção.


Bem, esquisitices à parte, acreditemos ser esse aspecto da norma ortográfica bem menos importante do que a qualidade de vida da população. Falta do que fazer, obrigam-nos, é ordem. Como diria o escritor Roland Barthes, “a linguagem é uma legislação, a língua é seu código”, no entanto, é possível mudar a nossa história de descaso. Boaçu ou Boassu sempre significará lugar de cobra grande, isso é fato. Inevitável constatação. Cobremos, então, do governo o nosso direito de cidadãos gonçalenses.


Erick Bernardes é escritor e mestre em Estudos Literários.



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