Festival de balão na curva fria, por Erick Bernardes


Foto da tela de Paul Klee: Castelo e sol
Foto da tela de Paul Klee: Castelo e sol

Fui até o fim da rua asfaltada e parei, pois havia esquecido de levar o binóculo na mochila. Sim, esqueci, de fato saí de casa sem lembrar do instrumento que me permitiria ver os balões de perto. Segui assim mesmo, desnecessário perder tempo devido ao adiantado da hora. Exato, pegaria o ônibus da viação Garcia no ponto final e seguiria até a Curva Fria, no campo ao pé do Morro do Tamanco, no bairro Engenho Pequeno.


A verdade é que a ansiedade me dominava. O binóculo ficou para trás. Era de manhã, mas não tão cedo assim. Ao menos umas oito carrapetas de papel hulk dominavam o céu. Necessário ir rápido, a revoada dos balões em formato de lata aconteceria logo. Nuvem de dezenas de retângulos de duas folhas e meia de celulose multicolorida.


O evento ocorria pelo menos três vezes ao ano, datas comemorativas ou não, os festivais não contavam com dias certos. Mas aconteciam, vez ou outra, embora fossem proibidos. Já no sábado anunciavam o domingo alegre. Verdade, tinha golfier, truff, bagdá, tradicional, japonês, latão, estrela, dentre outros tantos tipos de balões. Bandeiras em mosaico e cabeçotes de fogos de artifício complementavam a atração. Admitemos, a lei vetava a tradição perigosa do balonismo de fogo. Quer saber se isso impedia o evento? É ruim, hein. Famílias e mais famílias enchiam o campo da Curva Fria, no trevo entre a Mentor Couto e o caminho para Santa Catarina. Carros e gente de todos lugares se encaminhavam para lá.


O pipoqueiro do bairro aproveitava a atração, um ou outro morador sagaz vendia cachorros-quente e hamburgueres à beira do campo. Apesar de ilegal soltar balões, o festival configurava atração, coisa linda de se ver, um céu parecendo tela de pintor genial. Creio que nem Paul Klee pincelaria um mosaico assim. Mas era proibido, no mínimo já se enquadrava nos autos de contravenção penal, talvez fosse crime, necessário admitir carência de informação exata. Porém, proibido, isso sim.


Hoje tenho consciência do perigo, dos prejuízos incendiários que a prática causava. Decerto um ou outro leitor condenará a lembrança dessa crônica, talvez alguém sentirá nostalgia de infância como eu. Não duvido. Entretanto, fazer o quê se a memória não dá bola para a razão. Faço coro para ressaltar a proibição da prática do balonismo. Responsabilidade, cidadania, não solte balões, mas era bonito, lá na Curva Fria, no bairro Engenho Pequeno. Que beleza. Proibido.

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.






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