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O bairro do Pita e algumas pitadas literárias, por Erick Bernardes


Antiga Indústria Estrela/Foto: Rennan Rebello

Conversa divertida e promissora, bate-papo despretensioso mas fértil, inteligência sem amarras, ideias fluíram, e eu presenciei o interesse brotar tão logo ele se deparou com a cor vermelha do livro Cambada. Pois é, assim nasceu mais uma temática para a coluna do jornal de domingo. E vamos ao "causo".


O jornalista Rennan folheou as páginas do volume de crônicas recém-lançado e reclamou:

— Estou chateado! Você falou da Covanca, do Barro Vermelho, de Neves, até a rua Dr. Jurumenha foi homenageada. Cadê a minha pequena Copacabana gonçalense? Senti falta do Pita, o meu bairro não merece ser citado?


Bem, necessário reconhecer que o amigo tem lá a sua razão. Não referi ao Pita na coletânea. Contudo, a ausência se deu muito mais à escassez de fontes orais e menos por causa de alguma falta de interesse pelo bairro onde eu mesmo estudei. Verdade. Passei a minha primeira etapa escolar no Colégio Cônego Goulart, e não raro assombrado pelas equações do professor gigante ante à visão do mastigar reptiliano da banana d'água misturada ao biscoito de maizena que lhe era habitual degustar na hora do recreio. Sem contar as muitas vezes em que vovó me levou à farmácia do seu Francisco, só porque os espasmos de tosse me atormentavam as noites encatarradas. Fórmulas feitas na hora, ali mesmo, no balcão de manipulação situado no Pita. Incrível como a humanidade do simpático farmacêutico se sobrepunha à química alopática. Era o carinho que curava, punha-se ao menos uma dose do ingrediente secreto chamado atenção e pronto.

Tempo bom aquele. Em termos, né? Pois repeti de ano e sofri sanções pelo péssimo desempenho escolar. Mas o Rennan me fez recordar fatos legais e anteriores. Eu mesmo não lembrava da antiga Indústria Estrela do português José Américo Hilário — e que depois virou loja de aparelhos de refrigeração. Dizem que o nome da fábrica fora escolhido por causa da Serra da Estrela, lugar natal do velho imigrante lusitano Hilário. Isso mesmo, o senhor mais melancólico do que hilariante anestesiava a saudade ouvindo fado e montando peças e utensílios domésticos em sua oficina. Mais um fato interessante toma o nome de outro antigo proprietário de terras gonçalenses como registro de fundação do bairro Pita. Explico. Ou melhor, o meu amigo jornalista é quem narra pra você:


— Rapaz dizem que antigamente isso tudo era uma fazenda. O dono era o Antônio Pita Gonçalves. Ele não possuía só propriedades aqui em São Gonçalo, não. O cara tinha grana e influência para além da Guanabara. Ele doou essa fatia pertencente ao distrito de Sete Pontes para a prefeitura de São Gonçalo no intuito de amenizar os transtornos causados às ruas e avenidas de Neves e adjacências, tudo por causa da concentração industrial. O sobrenome Pita ficou como homenagem a esse senhor, atitude recíproca por parte da prefeitura, tão logo se instituiu ali o bairro.


Viu aí, caro leitor? Incrível com uma síntese narrativa bem construída de um pesquisador nativo é capaz de nos tocar. Nascido e criado no Pita, a explicação amiga se reveste de sentido e nos oferece um retrovisor do tempo bem conclusivo. Abraços, Rennan, saudades!

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudo Linguísticos.


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