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Negritude chora a perda do mestre. Morre o professor Andrelino Campos



O professor doutor Andrelino Campos, do Departamento de Geografia da Faculdade de Formação de Professores (FFP-UERJ), faleceu ontem (21) devido a complicações de uma trombose.

Eu tive o privilégio de conhecê-lo em meu período de graduação na mesma faculdade, cursando História. Andrelino foi um dos meus orientadores no Projeto Apologia que daria origem a esse jornal em 2010.

Foi através dele que me aproximei das questões urgentes do racismo e da desigualdade social originária na escravidão, tão bem narrada em seu livro Do Quilombo à Favela, lançado em 2006.

Em 2007 o entrevistei na coluna Fala Professor do jornal Apologia. Vale a pena ler. Descanse, mestre!

O sepultamento será no cemitério São Miguel, em São Gonçalo, às 15:30 horas.

***

FALA PROFESSOR

Andrelino Campos, professor do Dep. de Geografia da FFP, lançou recentemente "Do Quilombo à Favela", livro que pretende desvendar a essência do espaço segregado e que reafirma as classes populares como sujeitos da História.

A sua área de atuação é um pouco espinhosa para alguns alunos, mas fundamental para uma formação, acadêmica sólida: a epistemologia, ou, pra facilitar no português, a teoria do conhecimento. "O que diferencia o saber acadêmico do saber popular é que o primeiro pergunta, o segundo não. O saber popular se constrói na própria dinâmica cotidiana". Esse é o Andrelino...

Foi difícil escrever este livro?

Os primeiros três anos foram difíceis. Foi o período da busca do objeto. Nesse período passei a me enxergar na própria pesquisa. Quando percebi isso, o livro deslanchou, e eu descobri minha função na sociedade.

Você é um negro bem sucedido?

Isso tem várias leituras. Mas se eu me achar assim, acabou, é ponto final. Eu sou um preto que se identifica com a afro-descendência, e sei que tenho muito a fazer...

Como a Universidade recebeu os pretos?

Toda coisa nova assusta. Um acadêmico se assusta com a chegada de outros. As classes dominantes escreveram a História sob o ponto de vista de sua classe. A História não perdoa, acontece.

Qual a principal conquista do negro na sociedade?

A principal conquista é se ver. A partir da existência se cria consciência. Em relação a Zumbi, por exemplo. Vejo que a figura do herói é fundamental para que se crie consciência.

Ser professor ainda vale a pena?

Claro que vale. É a única profissão que consegue lidar com milhares de cabeças. Ser professor é investir no consciente coletivo. Nós fazemos isso o tempo todo. Os alunos, que seriam o objeto de mudança, acabem provocando a nossa própria mudança. E isso é o mais interessante, porque acaba sbvertendo a lógica do que você proposto a fazer. É você quem muda.

Jornal Apologia, janeiro de 2007.


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#SÃOGONÇALO #CIDADE #ANDRELINOCAMPOS #FFPUERJ

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