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A caveira totem de Tribobó, por Erick Bernardes


O crânio de Tribobó/Foto de Alex Oliveira

Eram quase sete da manhã, quando seguimos para o trabalho dependurados na balaustrada do ônibus superlotado, tal como mexilhões agarrados na pedra rugosa da praia do Gradim. Normal, naturalmente enervante a manhã de segunda-feira. Afixados no balaústre, sofrimento urbano, exatamente. Uma situação corriqueira em terras fluminenses, até que um acontecimento sombrio se configurou para todo mundo ver. Sim, lá pela altura do bairro Tribobó, quase chegando ao Arsenal. Situação medonha: decerto um começar aterrador de expediente.


Tipos comuns e mecanizados da vida ficavam fuxicando ao meu lado, por causa de uma caveira humana exposta junto ao acostamento, sobre um pilar da companhia (CEG) de gás. Recordo bem, nem faz tanto tempo assim. Um falatório danado dentro do veículo lotado. Passageiros agitados e assustados, impossível não se impressionar: “— Que horror, meu Deus, isso traz doença!” Berrava a senhora suada e quase bêbada retornando do forró encardido da madrugada.


Alvoroço dentro do coletivo. Falatório em tom atenuado de velório — e aquele crânio ali ao lado, ostentando órbitas desafiadoras. Juro, desnecessário inventar, uma caveira de coloração escura na têmpora, a metade da boca parecendo gargalhar. “Deve ter saído do IML que fica ali do lado", comentou o cidadão sonolento. “Está aí desde ontem”, arrematou o motorista bastante enfático.


Pois é, querido leitor, os dentes à mostra. Incisivos e caninos superiores expostos e sem a respectiva queixada. Claro, né, ausência de beiço para cobrir a arcada de cima. Troço feio, arco bucal de péssimo agouro e assemelhando sorriso dentuço. O oco da expressão humana. Sinistro.


Enquanto os curiosos diminuíam a velocidade dos carros, no intuito de poderem enxergar a cabeça do esqueleto, o fenômeno já constituía elemento prenunciador do engarrafamento daquele dia. Verdade, o fato incomum deu um nó no trânsito. Há dois anos e meio isso foi notícia. Reminiscências que continuam a me atormentar o juízo. Impossível não recordar.


E o caso terminou assim. Um crânio humano, pertinho da Polícia Rodoviária, no cruzamento entre a BR 104 e 106, na cidade de SG.

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.




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