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A magia do botequins, por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Foto: https://www.papodebar.com/em-defesa-dos-botecos

Eu não gosto de beber em botequim. Gosto de ficar lá. Gosto do ambiente, das pessoas e das conversas. No botequim você discute futebol, política, vida doméstica, sabe da vida da cidade e de todas as pessoas famosas ou não. No botequim descobri, graças a Aparecido, que meu amigo Rico fuma um cigarro com cheiro de defumador e que ele, Aparecido, fica com um sono danado quando fica muito tempo perto da janela que dá pra casa do Rico e depois acorda com uma fome daquelas.


Por falar em fome, e a comida do botequim? A cozinha do botequim parece mágica, se faz a sardinha frita mais gostosa do mundo, a rabada, a costela, a linguiça, o chouriço, a empada, nada é mais gostoso que a comida de botequim e por mais que se esmere ninguém consegue fazer igual.


O termômetro da política é lá, quer ganhar a eleição? A primeira pesquisa eleitoral é a de lá e o candidato pode até não ganhar, mas se o botequim falar que ele é o melhor pode ter certeza: ele é o melhor. No botequim tem jogo de bicho, tem o jornal do dia com as notícias que você só vai saber amanhã e em alguns rola umas maquininhas de caça níquel escondidas por trás de caixas de cervejas empilhadas de forma a escondê-las.


Semana passada estava eu conversando com meus confrades e um deles me contou que viu em determinado local, acho que fora do Brasil, uma senhorinha com cara daquelas vozinhas que fazem bolos de fubá com coco pra gente em tardes de chuva jogando numa dessas maquininhas proibidas por aqui. Ela, com o cigarro tremendo entre os dedos da mão direita apertava com os da esquerda os botões e na tela a resposta não era o que ela esperava. O telefone dela não parava de tocar, do outro lado da linha uma filha aflita perguntava:


_Mamãe! Onde você está mamãe? Já são quase oito da noite mamãe! O que houve? Que missa é essa? – a senhorinha tremendo de nervoso e quase em lágrimas tentava disfarçar e respondia:


_ Fiquei conversando com o padre e esqueci a hora, é o tempo de uma ave Maria e já chego.


Com lágrimas nós olhos e enfiando os últimos “dez” na máquina a senhorinha ajoelhou-se no chão com as mãos entrelaçadas olhando a tela que girava e rezava por aparecer cinco figuras iguais. Aqueles “dez” eram os últimos de uma minúscula e insuficiente aposentadoria que deveria prover sua velhice, mas não davam nem para os remédios. Jogava para tentar melhores dias, mas como o nome da máquina já diz ela é “caça níquel” e não dá nada a ninguém. Porém naquela hora um ser maior a estava amparando e quando a tela parou de girar as cinco figuras estavam lá estampadas e inertes.


Aquela senhora ajoelhada ali e aliviada por ter ganhado mais de três vezes o valor da sua aposentadoria que ali depositara orou aos céus e jurou nunca mais chegar perto de uma máquina daquelas. Quando ele acabou de contar meu peito se fez paz e alegria. O botequim também nos dá emoções imensuráveis.


Eu ainda estava tomado pela emoção e retornando dessa história quando vi surgir por trás de umas caixas de cervejas empilhadas quase no meio do bar uma senhorinha pequenininha, cabelos branquinhos, daquelas que imaginamos poder ser nossa avozinha e que vai fazer bolinhos de chuva pra gente numa tarde de inverno. Passou por mim com passinhos curtos, com um cigarro entre os dedos da mão direita e uma pequena bolsinha na mão esquerda, nos lábios um sorriso daqueles de criança quando faz uma traquinagem bem sucedida.


Ah o botequim...!!!!!!

Paulinho Freitas é compositor e sambista.






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