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Apolo III e a odisseia administrativa do espaço, por Erick Bernardes

Prometi pra mim mesmo escrever textos sobre cultura grega. Simples assim, começaria narrando a trajetória de algum deus mitológico ou herói que batizou até nome de ônibus espacial. Pois é, escolhi Apolo, o mito encantador da Europa Ocidental.


Desta vez tomei a decisão; nada de falar de bairros pertencentes a São Gonçalo. Hoje o motivo é outro, uma fuga do tema da cidade, coisas para espairecer, necessidades pós-modernas, refrigério mental. O vaidoso figurão olímpico da Grécia Antiga me veio à cabeça — e, então, o caso aconteceu assim:

Certa noite, estava eu sentado e tranquilo assistindo à explicação de uma professora sobre sua trajetória de defensora da História de São Gonçalo. Sim, excelente palestra, decidi assistir, oportunidade única de me encharcar de sabedoria acerca do nosso município. De repente, o nome do mito se ligando a São Gonçalo me entra pelos ouvidos em câmera lenta: A-p-o-l-o... A-p-o-l-o... Juro, caro leitor, inegável constatação, para onde quer que eu olhe enxergo história gonçalense. Nada de cultura clássica, nem lendas de deuses me demoviam do lugar. E eis que a experiente palestrante decide falar do Apolo, não aquele deus bonito e europeu, claro que não, mas o outro, o nosso Apolo de número 3, quer dizer III, em romanos.

De acordo com a oradora, houve um tempo em que lotearam uma imensa área entre São Gonçalo e Itaboraí (coisas de certa imobiliária afoita por novos compradores), quando três bairros conjuntos surgiram: Apolo I, II e III. Pense na beleza que chegaria a ser. Um triplo deus do Olimpo em registro formal — e pelo nome do personagem clássico já se vê suposta harmonia que configurariam os terrenos. Mas não, isso deu foi confusão fiscal, infelizmente, brotaram aporrinhações de IPTU para o Apolo de número três. Exato. Do lado de Itaboraí, Apolos I e II não tiveram aborrecimentos, filhos tranquilos que são da nossa irmã Itaboraí. Já do lado gonçalense, travou-se disputa bimunicipal para o caçula dos logradouros. Cena épica para registros de cartografia política. Explico, é que a fundação do Apolo III ocorreu em espaço de São Gonçalo, embora persistissem em dizer que era lá de Itaboraí, daí o antigo loteamento vir a ser, de fato, um bairro gonçalense, porém só 4 anos atrás.


Por fim, sabe-se que Apolo III somente entrou para o mapa das bandas de cá em 2014, época da gestão prefeita e imperfeita de Neilton Mulim, quando as querelas territoriais e os nossos impostos se diluíram no vento. Uma odisseia do espaço territorial e urbano, a clássica história mal resolvida e que de bela não tem nada, mas o povo se agradou.

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.



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