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Reminiscências do Morro do Castro II: uma outra história, por Erick Bernardes


Igreja N. S. das Graças, no terreno da fazenda/Fotos: Erick Bernardes e Paulo Pezão

Começo esta crônica com um assunto um tanto quanto sobrenatural. Imagine, a história surgiu daquilo que se convencionou chamar de déjà vu. Verdade, uma narrativa com cara de esoterismo, todavia, como manda a velha e sensata credibilidade de escrita, menciono o caso como simples coincidência. Isso mesmo, pura impressão de escritor, tudo fruto do acaso. Nunca estive antes no Morro do Castro, mas pressenti ter certa intimidade com a comunidade tão logo fui conhecer os arredores. Então vamos à história.

Certa vez sonhei ter pisado num lugar onde, na realidade, jamais estive. Um sonho e nada mais, coisa rápida, resultado de certa madrugada agitada. Noite mal dormida, suores noturnos, zunidos irritantes de mosquitos, sensação pesada — e tudo se normalizou depois. Passados alguns meses, as imagens criadas durante o sono se diluíram no tempo. Bem, ao menos foi o que pensei, pois, no fundo, no fundo, não diluíram. Na verdade, a lembrança do sonho voltou a me fustigar o espírito.


O caso de coincidência ocorreu quando decidi me encontrar com Paulo Pezão, figura das mais populares no Morro do Castro, e que teve atitude gentil de me apresentar à comunidade. E adivinhe! Isso mesmo, o simpático e solícito Pezão me fez (sem saber) reconhecer o Morro do Castro como o ambiente do tal sonho esquisito. Sim, pressentimento estranho. Pasme, caro leitor, aquele mesmo lugar visto outrora estava ali, igualzinho às imagens mentais daquela noite. Colégio João Brasil, Campo do Veterano e do Pimba de futebol, as Sete Minas de fontes naturais de água, Morro da Sereia, Pico da Bandeira, fábrica de biscoitos do tipo beijinho de coco, comércio local desenvolvido. Como explicar o fato de tudo aquilo me parecer familiar? Não há explicação. Só sei que me entrosei de súbito com os moradores e comecei a perguntar:



— Que ladeira com estradinha é aquela, Pezão? Parece uma fazenda centenária. Colonial até nas muretas da varanda.


Desnecessário reconhecer que acertei em cheio. A parte do morro onde antigamente pertencia ao lendário Capitão Raul me oferecera a lindíssima visão do casarão da fazenda colonial. Construção bonita de alvenaria e tombada por alguma instituição. Porém, só referiam a ela como "A Fazenda", simples assim. Eu apontava o dedo e comentava, como se fosse íntimo dos lugares. Árvores, rios, pedras e paredões. Incrível, nem eu mesmo entendia o que se passava comigo quando adivinhava os nomes. Até achei uma corrente no chão com um tipo de mandala ostentando a letra "E" do meu nome. Cordão bonito, círculo singelo, senti que me pertencia. Guardei o símbolo no bolso.


Voltando ao assunto do capitão, dizem que o Senhor Raul ostentava patente alta do Exército Brasileiro por causa dos feitos de coragem. Homem taciturno, de pulso firme — mas admitem que demonstrava firmeza além da conta no trato com os outros. As terras desse militar mal-encarado alcançavam boa parte do Morro do Castro. Há ainda a velha igreja pertencente ao terreno da fazenda, aparelhos antigos de aragem e conservação do solo, um tacho de fazer garapa; relíquias do casarão. Coisa linda de se ver! Perguntei se o velho capitão tinha olhos verdes e perna semiparalisada e, pronto, acertei de novo. Estranho, como eu sabia? Meu Deus, até eu fiquei com medo! Melhor mudar de assunto.


— E então Pezão, me fala do futebol do carnaval do morro. Dizem que Jorge Luiz do Vasco e Edmundo jogaram no time do Castro e dançavam fantasiados de mulher no Bloco da Chaleira, é verdade?


E, assim, desviando o curso da conversa e a impressão de déjà vu, perdemos (eu e o Pezão) mais de hora e meia em conversa boa. Assunto leve, dessa vez nada de sonhos sombrios. Fiquemos por aqui, então, pois o tempo urge e a minha cabeça quer lembrar de outros carnavais.


Foto 1 e 2: Igreja N. S. das Graças, no terreno da fazenda.

Foto 3: Tacho de fabricação da garapa na antiga fazenda do M. do Castro.

Foto 4: Azulejos com mensagem de acolhimento.

Foto 5 e 6: Símbolos de metais afixados nas paredes do casarão.

Foto 7: O casarão da fazenda, com a arquitetura já modificada.

Foto 8: Estradinha que levava o povo à extinta fábrica de biscoitos do tipo Beijinho de Coco.

Foto 9: O nosso amigo, agora também leitor do Daki, Paulo Pezão ostentando seu o livro Cambada.

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.



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