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São Gonçalo e seus ícones literários: Luz del Fuego

São Gonçalo e seus ícones literários

4

(Séc. XX)

LUZ DEL FUEGO (DORA VIVACQUA)

ESCRITORA, FEMINISTA, DANÇARINA E ATRIZ


Por Erick Bernardes


Dora Vivacqua, mais conhecida pelo nome artístico de Luz del Fuego (1917-1967), nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, no dia 21 de fevereiro de 1917. Foi a décima quinta filha de Antônio Vivacqua e Etelvina. No início dos anos 20, a família Vivacqua mudou-se para Belo Horizonte, capital do estado mineiro, mas só após "Luz del Fuego" conhecer o serpentário do Instituto Ezequiel Dias, fez do tal criadouro de ofídios o seu passeio preferido.

Em 1950, começou a colocar em prática as ideias naturalistas de vegetarianismo e nudismo apresentadas em "Trágico Black-Out", um romance noir escrito por ela. Naturalista e naturista, veja só! Afirmaria a visionária "um nudista é uma pessoa que acredita que a indumentária não é necessária à moralidade do corpo humano. Não concebe que o corpo humano tenha partes indecentes que se precisem esconder". Luz começou a tornar públicas suas ideias em um país onde ainda não se usava maiô de duas peças nas praias e o culto ao corpo se resumia aos concursos de Miss Brasil. Mulher à frente do seu tempo, a capixaba reunia um pequeno grupo de amigas na praia de Joatinga, próximo a sua casa na Avenida Niemeyer. Era uma praia deserta, devido ao difícil acesso, sempre acompanhada de Domingos Risseto, Miss Gilda e Miss Lana (dupla de transformistas amigos de Luz), alguns cães e Cornélio e Castorina, estes dois amigos da artista. Certa vez, a polícia foi até lá (na referida residência), encontrou a turma sem roupa e levou todos para a delegacia. Luz não se abateu, gostou do vuco-vuco da imprensa, quando percebeu então que o nudismo lhe asseguraria a evidência, a publicidade que tanto iria deixá-la famosa. Publicou também o livro "A Verdade Nua". Nele lançava as bases de sua filosofia naturalista. De acordo com Luiza Villaméa, para a coluna “Coisas da história”, da Revista Arte Brasileiros: seu “talento nos palcos foi questionado mais de uma vez, mas o sucesso de suas apresentações era indiscutível. Logo ficou conhecida em todo o país. E não parava de ousar, inclusive em outros campos. Foi uma das primeiras brasileiras a pilotar um avião. E a saltar de paraquedas” (VILLAMÉA, 2018, s\p).

Del Fuego e sua inseparável jiboia/Autor desconhecido

Saiu nos jornais da época, pioneira no assunto, Luz del Fuego acabou inaugurando o nudismo em meio à natureza caiçara. Escândalo total. Adquiriu uma ilha na Guanabara, uns dizem que a dançarina comprou com o lucro dos seus livros proibidos, outros asseguram ter ela recebido o espaço insular de certo militar poderoso. A Ilha do Sol de fato atraiu gente até de Hollywood, suprassumo dos noticiários: “entre os seus visitantes o ator Steve McQueen (1930-1980) despia-se com gosto nas terras fluminenses”. Mas acabou, mataram-na em 1967, crueldade. Encontraram o corpo em uma das praias gonçalenses. Sim, assassinaram Luz del Fuego. Triste fim da escritora e atriz destacada. Ainda hoje, há indícios da antiga construção do seu movimentado cabaré. Os sons alegres das comemorações e das jogatinas não se ouvem mais. Destruíram quase tudo dos tempos áureos de antigamente. Agora, visitantes curiosos atravessam as águas da Baía de Guanabara só para conhecer o lugar. Há quem queira visitar e tirar fotos dos escombros do que foi o teatro de outrora. Uns tostões ao dono da canoa e pronto. Isso permite ao curioso conhecer os restos do cabaré.


Enfim, necessário reconhecer, a história segue aos poucos transformando em ficção o passado de São Gonçalo. O leitor tem dúvida? Pergunte por aí, o cidadão lembrará do assassinato com o lustre esfumaçado do imaginário popular. Se existiu mesmo tanta fama assim para o tal cabaré na Ilha do Sol? Não se sabe. Mas as ruínas estão lá, só não podem afirmar ruínas de quê e destruídas por quem. Tudo tende a ser esquecido no Brasil, inclusive a violência contra a mulher, sobretudo.

Familiares teriam recomprado exemplares e queimado/Autor desconhecido

Fonte:

https://artebrasileiros.com.br/opiniao/luz-del-fuego-e-o-meu-corpo-minhas-regras/

https://www.jornaldaki.com.br/post/2018/08/12/o-caso-da-ilha-a-vida-e-a-morte-de-luz-del-fuego-por-erick-bernardes

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.




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