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Itaoca e um fantasma chamado lixão - por Erick Bernardes


Foto: Pixabay.
Foto: Pixabay.

Se você acha que o assunto de hoje tende ao tema da criminalidade advinda da violência municipal, se enganou. Trato agora de um viés bastante ecológico e importante para o bioma da região. A história começa com a certeza de tantas e quantas coisas boas o nosso mangue pode nos oferecer. Uma delas deriva do filtro natural que constitui o bosque de manguezais, retendo a poluição que chega pelos rios e canais. Isso significa que parte do carbono liberado na atmosfera é captado pela flora do mangue, através de seus sistemas de raízes entrelaçadas, mas para o próprio ecossistema do manguezal tal situação nem sempre se revela benéfica. Ou seja, o ambiente se prejudica ao se sobrecarregar de impurezas, reduzindo o que chega no mar. Bastante ruim para o filtro natural chamado manguezal.



A Ilha de Itaoca em SG é um clássico exemplo desse tipo de implicação. Para quem não a conhece, ela constitui a segunda maior ilha da Baía de Guanabara, tendo por extensão aproximadamente sete quilômetros quadrados, separada do continente pelos manguezais que compõem a APA de Itaoca, no que se chama de Recôncavo da Guanabara. Exatamente, bem maior que a irmã mais famosa Paquetá, inclusive.



Houve um tempo, em que na ilha de Itaoca havia um gigantesco lixão de onde mais de cem famílias extraíam sua cota de sobrevivência. Juro, caro leitor, o lixão além de contaminar o solo e, obviamente, os canais locais, sustentava pessoas com seus restos de produtos resultantes do que a sociedade descartava. Triste constatação, uns jogavam fora, outros se alimentavam com a sobra. Sim, na época era lixo de SG, Niterói e Itaboraí sendo despejado em Itaoca. Vale ressaltar que, embora seja conhecido como lixão de Itaoca, suas dependências se encontram dentro dos limites do bairro Fazenda dos Mineiros.



Para falar do lixão é importante atentar para dois momentos especiais: o primeiro, na data exata de 1976, de quando esse depósito de rejeitos foi criado recebendo lixo de maneira indiscriminada e, a outra, em 2004, quando no lixão fora criado um controle do que podia ser jogado ali, até 2012, encerrando suas atividades de despejo. Mas o que foi feito das famílias para as quais a subsistência estava ligada aos lixos por elas reaproveitados? Qual o suporte a essa população se ofereceu, então? Adivinha: nada de apoio aos moradores. O famoso “chegar junto” nunca existiu para quem vive na ilha gonçalense. Nenhum suporte econômico ou coisa do tipo houve por lá. Triste saber, se estava ruim, imagina sem lixo para extraírem o seu sustento.



O fato é que o aterro sanitário não recebe mais oficialmente material de descarte — eu disse oficialmente —, no entanto, o chorume de outrora ainda corre entre a camada invisível do solo, contamina os canais e sedimenta metais pesados e outros poluentes tóxicos na lama do manguezal adjacente à ilha, podendo afetar os moradores e o ecossistema da região. Em outras palavras, o lixão encerrou suas atividades, mas o chorume penetra nos veios do chão e se espalha pelo fundo da Baía da Guanabara. Pois é, o poder público esqueceu dos moradores de Itaoca, nem se fala em melhorias por lá. Uma lástima mesmo, uma lástima.


Assista ao vídeo sobre o assunto: https://youtu.be/7u_cqdnXmwM



Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.





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