Ordem, Memória e a Nave
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Ordem, Memória e a Nave

Por Mira Pimentel


Jornal Daki com IA
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Há um momento curioso na vida pública do Rio de Janeiro em que certas palavras voltam a circular com elegância nos corredores do poder. “Ordem”, por exemplo. Ela chega bem vestida, com discurso alinhado, prometendo arrumar gavetas, limpar excessos, reorganizar o que por tanto tempo pareceu entregue ao improviso. É uma palavra bonita. Sedutora até.


Mas o carioca — esse que já viu de tudo um pouco — aprendeu a desconfiar de palavras que chegam prontas demais. Porque já vimos esse movimento antes. Trocam-se nomes, ajustam-se cadeiras, exoneram-se rostos, revisam-se contratos… e, por um instante, tudo parece novo. Como uma casa que recebe visita e, às pressas, esconde a bagunça nos armários.


A pergunta que fica, silenciosa, mas insistente, é: estamos diante de uma mudança… ou apenas de uma melhor organização do mesmo cenário? Existe uma diferença sutil — e profunda — entre arrumar e transformar. Arrumar é imediato. Transformar exige ruptura. Arrumar preserva estruturas. Transformar questiona o que nunca deveria ter sido aceito.


E talvez o maior desafio não esteja apenas dentro dos palácios, mas fora deles. Porque enquanto esperamos que alguém “coloque ordem”, pouco nos perguntamos sobre o que, dentro de nós, já se acostumou com a desordem. Dizem que o tempo ensina. Mas, no Rio, às vezes parece que ele apenas passa.


A memória do eleitor — essa entidade frágil e seletiva — costuma funcionar como onda: vem forte, arrebenta, faz barulho… e depois recua, levando consigo quase tudo. E isso talvez explique muita coisa.


Já fomos capazes de sonhar grande. Houve um tempo em que educação não era apenas promessa de campanha, mas projeto de transformação. Quando escolas surgiam como símbolos de futuro, quando se acreditava, de verdade, que uma criança bem cuidada hoje poderia mudar o rumo de um estado inteiro amanhã. Não era perfeito — nunca foi. Mas havia ideia. Havia direção.


Hoje, o que se vê é diferente. Assistimos a uma repetição quase coreografada: escândalos surgem, indignações explodem, discursos inflamam… e, pouco tempo depois, o silêncio volta a ocupar o espaço. Como se nada tivesse acontecido. Como se tudo fosse apenas mais um capítulo previsível de uma história que já cansamos de conhecer — mas seguimos assistindo.


A pergunta que insiste, quase incômoda, é: em que momento passamos a aceitar tão pouco? Quando foi que trocamos projetos por improvisos? Visão por sobrevivência política? Futuro por remendo?


A tal “nave” — esse estado complexo, potente e tantas vezes à deriva — segue sendo conduzida entre promessas e correções de rota que nunca chegam a ser definitivas. E nós, passageiros, seguimos. Alguns atentos. Outros cansados. Muitos desacreditados. Mas todos, de alguma forma, parte da travessia.


Porque existe uma verdade que desconcentra: não somos apenas vítimas do percurso. Somos também, ainda que silenciosamente, coautores dele. Cada escolha, cada esquecimento, cada concessão feita no íntimo da consciência… vai desenhando o caminho de quem assume o comando.


E talvez o maior risco não seja escolher errado. Mas escolher sem lembrar. Sem lembrar do que já foi tentado, do que já falhou, do que já deu certo… sem lembrar que um povo sem memória não exige — apenas aceita. E aceitar, no Rio, tem custado caro.


Seguimos, então, à espera de um novo comandante. Alguém que prometa direção, firmeza, mudança. Mas talvez a pergunta precise ser outra: estamos prontos para reconhecer um verdadeiro projeto… ou ainda seremos levados por discursos que soam bem, mas não sustentam o peso da travessia?


Porque no fim, não é só sobre quem governa. É sobre quem lembra. E quem lembra… não se encanta apenas com a ordem que aparece. Questiona. Observa. E aprende, com o tempo, a não confundir maquiagem com transformação.


“Nenhum homem é apto a governar outro se não aprendeu a governar a si mesmo.” — Sêneca


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Mira Pimentel é cronista.



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