A conta chega
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A conta chega

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Por Paulinho Freitas

 

Jornal Daki com IA
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Vou chamá-lo de Aristeu. Do santo não digo o nome, mas a história... 


A gente ainda era adolescente, da igreja, mas Aristeu só ia às missas por causa das meninas, do futebol e das festas. Ele era da curimba, ferrenho devoto de seu João Caveira, um Exu de poucas palavras, sério e de palavra justa. Se andar na linha tem tudo, mas se vacilar... Coitado! Ele não pede nada, mas se prometer, tem que cumprir. Então, se não se garante, não entra. 


Numa noite de agosto, Aristeu me chamou para acompanhá-lo numa oferenda que iria fazer a Seu João Caveira no Cemitério central. Eu tenho um medo danado dessas coisas, mas sempre fui curioso e gosto dos cultos, das crendices, das festas, acho aquilo tudo muito bonito e não resisti. Fui.  


Chegando lá, ele tirou todos os presentes das bolsas que carregava e sobre um tecido vermelho e preto colocou tudo delicadamente, como se fosse um garçom pondo a mesa. Pegou uma garrafa de aguardente e começou a molhar em volta, gritando o nome da entidade e prometendo que se ele fizesse fortuna e alcançasse felicidade durante a vida, se integraria a sua falange quando morresse.


Teve uma hora que minha vista escureceu, acho que desmaiei. Quando acordei, estava com as roupas e a boca sujas de sangue, cheirando a cachaça por todos os poros. Aristeu ria de mim e dizia que estava tudo certo, que Seu João Caveira tinha vindo, comido e bebido e prometido que ele alcançaria a graça pedida. Saí correndo sem olhar para trás, fiquei muito puto com Aristeu. Pô! Eu passo mal e ele joga aquilo tudo em cima de mim, me suja todo e ainda ri. Nunca mais falei com ele. 


O tempo passou, saí daquele bairro. De vez em quando alguém falava dele, que estava morando fora do país e que estava rico, mas vê-lo, nunca mais. 


Todos os sábados vou ver meu irmão que ainda mora na mesma casa onde Deus me deu vida há quase setenta anos atrás e passo pela rua onde Aristeu morava. A família dele ainda mora lá, na mesma casa. Num desses sábados, quando ia ver meu irmão um membro da família dele me chama, Aristeu estava lá em visita e queria me ver. Aguardei.


Da casa sai um homem muito velho, não se parecia em nada com Aristeu. Me abraçou e disse que não queria ir embora sem me ver. Queria que eu fosse com ele, outra vez no cemitério para que ele colocasse outra oferenda para Seu João Caveira, disse que eu era imprescindível nesta missão. Olhei para ele, nem sinal daquele Aristeu, um forte quase gordo, agora esquelético, andando com auxílio de uma bengala, as mãos trêmulas, nos dedos finos de unhas grandes, um anel de ouro com uma caveira de olhos em pedraria brilhava. Só dele falar naquela coisa de oferenda meu corpo ficou todo arrepiado, o cabelo parece que ficou igual a pelo de gato acuado pelo cão, fiquei tonto. Respondi: 


_Nunca irmão! De jeito nenhum! “Quem se mete com curimba, que carregue o patuá! 


Entrei no carro e saí sem olhar pelo retrovisor. Ontem vi pelas redes sociais que Aristeu partiu desse mundo. Tomara que esteja em paz. 


Durante minha vida, fiz por onde ter paz interior, sem prometer e sem pedir ao oculto que me desse o que eu não fiz por merecer. Hoje, passo a maior parte do tempo sentado no sofá da sala, com a televisão ligada, só para ter um barulho, escrevendo e compondo. Nada tenho além do necessário para viver com dignidade. Meus filhos, noras e esposa então na copa, falam alto e gargalham, estão, cada um do seu jeito, felizes. Isso é o mais importante. Fico no meu canto, calado por fora e feliz por dentro, jogando cerveja para o ar como um torcedor, quando o Vasco faz um gol. Foi difícil, mas compensador. 


 Tudo que vem fácil, vai fácil, e um dia... A conta chega. Acredite: Chega!


Por via da dúvidas” 


_ Laroiê! 


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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.

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