Ciclos: A Sala de Aula da Vida
- Jornal Daki

- 16 de abr.
- 3 min de leitura
Por Mira Pimentel

Nasci há 59 anos — e não foi apenas o tempo que passou por mim. Fui eu quem passei por ele, atravessando ciclos como quem percorre estações de um trem que nunca para.
Na infância, aprendemos sem perceber. Absorvemos o mundo como terra fértil, sem filtro, sem defesa. Crescemos acreditando que os vínculos são eternos, que os afetos são absolutos, que a vida é uma linha reta. Mas não… a vida é curva, espiral, retorno e reinício.
Com o tempo, os ciclos começam a se revelar: amizades que chegam como primavera e partem como folhas no outono. Pensamentos que amadurecem, crenças que caem, entendimentos que se expandem. E seguimos… aprendendo a nos posicionar diante dessa correnteza caudalosa que é existir.
Percebo em mim que viver é, paradoxalmente, entender — tarde demais — aquilo que sempre esteve diante dos olhos. Quando finalmente compreendemos certas verdades, já estamos, de algum modo, nos despedindo. E então surge a pergunta silenciosa: o que fica?
Fica a casca? Grossa, endurecida pelas dores? Ou a casca fina, elegante, de quem entendeu que ser humano é aceitar o corpo, com seus prazeres e necessidades…a alma, com seus desejos, suas faltas, suas inquietações…e o espírito, esse sopro invisível que insiste em nos empurrar para a evolução?
Somos essa tríade em movimento. Carne que sente. Alma que deseja. Espírito que busca.
E a vida… ah, a vida é uma sala de aula infinita.
Nela, os mestres não vêm apenas com títulos ou diplomas. Eles chegam disfarçados: são amigos leais, que nos acolhem e ensinam o amor. Mas também são aqueles que nos confrontam, nos ferem, nos desafiam — e, sem querer, nos mostram exatamente onde precisamos crescer.
Há os que cooperam. E há os que atrapalham. Mas todos, de alguma forma, ensinam.
Hoje, depois de tantos ciclos, percebo algo libertador: já posso escolher meus cursos. Já posso decidir quais aprendizados quero aprofundar, quais mestres desejo escutar, quais presenças merecem permanecer.
Isso é maturidade. Isso é consciência.
E nessa escalada da vida, passo a selecionar aqueles que iluminam o caminho — não os que confundem, não os que drenam, mas os que aquecem como o sol. Porque, no fim, é para lá que todos queremos ir: para um lugar de paz, de amor, de inteireza.
Curiosamente, essa dificuldade de escolha não é apenas individual. Basta olhar ao redor.
No cenário político carioca, por exemplo, vemos o reflexo de uma sociedade que ainda não aprendeu a escolher bem seus próprios mestres. Quando não sabemos quem nos guia, o destino se torna instável — e, por vezes, perigoso. Caminhamos desgovernados, à beira de precipícios evitáveis.
E então surgem figuras curiosas, quase caricatas, como Anthony Garotinho, se apresentando como uma espécie de “salvador”. E ali, entre o riso e o espanto, percebemos: regredimos aos quadrinhos.
Antes, era o Super-Homem na ficção. Agora, nos resta o “garotinho” na realidade.
Talvez rir ainda seja uma forma de não chorar.
Mas, voltando à essência — àquilo que realmente importa — sigo com gratidão. Aos meus mestres da amizade, aos encontros e desencontros, às dores que ensinaram mais do que muitos afetos.
Hoje, sou aquela que escolhe. Que filtra. Que compreende.
E daqui para frente, escolho caminhar com aqueles que são luz. Com aqueles que me aproximam da paz. Com aqueles que fazem do amor um estado permanente.
Porque, no fim, é isso que fica. E é para isso que viemos.
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Mira Pimentel é cronista.








































































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