Tudo o que vai...
top of page

Tudo o que vai...

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Por Paulinho Freitas


Jornal Daki com IA
Jornal Daki com IA

Ouvi meu pai falar muitas vezes que sempre corríamos atrás do dinheiro para comer, mas um dia teríamos dinheiro e não teríamos o que comprar para comer. Pelo andar da carruagem, desmatamento, aquecimento global, guerras sem nexo e contexto, ambição cada vez maior por dinheiro e posição social, o cada vez mais espezinhar naquele que está em baixo está dando muita razão às palavras dele. Mas, os falsos super-heróis do nosso tempo não perdem por esperar. A lei do retorno é infalível. Mais cedo ou mais tarde a casa cai.


Trabalhei há muitos anos atrás num mercado ali na cancela do Porto Velho. Da seção de salgados e cereais à varejo eu via a rua no final do corredor da seção de perfumaria. Muitas vezes vi um conhecido personagem gonçalence, - ainda vou falar dele aqui, ainda não arranjei um jeito, mas vou falar – pôr, dentro do short, shampoos e sabonetes que venderia na rua por um preço bem barato.


Dali também via entrar uma senhora de pele escura e corpo grande que caminhava com dificuldade. Chegava na seção e pedia cem gramas de mortadela para o almoço das crianças e um quilo de feijão à varejo, do mais barato. O rosto sem esperança dela me cortava o coração feito uma espada imaginária. As mãos trêmulas contavam as moedas com o rosto bem perto para enxergar os valores.


A gerente ficava na janela que dava para o salão, vigiava tudo. Sempre que ela não estava lá eu colocação o feijão melhor e cobria como o velho para ninguém desconfiar. Punha também uns gramas a mais de mortadela com o preço menor. Ás vezes ela pedia para catar os legumes que estavam na lixeira do depósito e ver se salvava alguma coisa.


Meu companheiro de trabalho, lá detrás observava e separava alguns legumes e frutas em bom estado para que ela alimentasse os netos. Um dia a gerente flagrou a sacola de legumes e mandou meu amigo do depósito embora, vociferando no meio do mercado e humilhando a pobre senhora na frente de todos. A pobre, chorando, olhou nos olhos da gerente e praguejou:


_”Se tem Deus no céu, que cegue toda a piedade, todo o perdão e toda luz que tiver em seu caminho. Que você tenha muito para teus olhos verem, mas que tua boca não possa tocar.”  


Disse isto e saiu de cabeça baixa, as lágrimas pingavam pelo chão e pareciam enfumaçar pelo branco piso. Era quarta-feira de cinzas, um carnaval para ser esquecido, já que nem o vimos passar por estarmos trabalhando. Como meu amigo do depósito, naquele mesmo dia eu fui embora para nunca mais voltar.


Dizem que o mundo dá voltas e sempre volta ao mesmo lugar, mesmo que muitos anos se passem, as pessoas repassam por sua vida, um encontro casual com abraço de saudade ou simplesmente um olhar e um passar fingindo não conhecer, mas sempre voltam e cruzam nosso caminho. Aquela senhora eu nunca mais vi e nem tive notícia, mas nunca me esqueci daqueles olhos tristes, das mãos trêmulas, do sorriso envergonhado, sem levantar a cabeça, mas agradecido por receber um carinho através de mim e de meu amigo de depósito ajudando a ela a levar um alimento melhor para os seus.


Nessas voltas do mundo, na semana passada, encontrei com meu amigo do depósito, confesso que não o reconheci, também, o tempo lhe levou os cabelos e pôs no liso rosto um enorme bigode. Mas ele lembrou de mim, apesar das rugas e dos cabelos brancos. Me disse que aquela gerente era sua vizinha e que teve um triste final.


Foi engordando e ficando com o corpo encurvado, igual aquela senhora, ganhou muito dinheiro, pois como gerente dos vários mercados por que passou, desviava mercadorias e vendia para mercados menores, ficou rica, mas contraiu um problema no estômago que a impedia de comer. Tudo o que punha na boca vomitava. Morreu de fome na frente da mesa cheia de comida.


Imediatamente me lembrei das palavras daquela senhora. Meu Deus! Me deu um arrepio pelo corpo que parecia que todos os pelos estavam em pé. Conversamos mais um pouco sobre a vida e nos despedimos. Até agora não consegui tirar esta história da cabeça e cada vez mais tenho certeza de que a lei do retorno existe e que temos que ter muito cuidado com o que desejamos, o que vai, certamente será, pelo mundo, trazido de volta.


Virgem Maria! Olhai por nós!


Nos siga no BlueSky AQUI.

Entre no nosso grupo de WhatsApp AQUI.

Entre no nosso grupo do Telegram AQUI.

 

Ajude a fortalecer nosso jornalismo independente contribuindo com a campanha 'Sou Daki e Apoio' de financiamento coletivo do Jornal Daki. Clique AQUI e contribua.



Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.

POLÍTICA

KOTIDIANO

CULTURA

TENDÊNCIAS
& DEBATES

telegram cor.png
bottom of page