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"O movimento estudantil abriu a minha mente"



Fomos à Escola estadual Nilo Peçanha, onde os estudantes realizam o movimento de ocupação #OcupaNilo e batemos um papo com uma de suas lideranças, Luiz Carlos Silva de Sousa

Era pouco mais das 11 da manhã quando chegamos ao Colégio Nilo Peçanha, no bairro do Zé Garoto, tradicional escola da cidade fundada em 1965. Logo acima do portão fechado com correntes e cadeado, uma faixa preta, de pano fino quase transparente, não deixava dúvidas: #OcupaNilo.

A escola gonçalense, administrada pela Secretária de Estado de Educação (Seeduc) foi a primeira a ser ocupada pelos estudantes na cidade dentre as 72 escolas de todo o estado do Rio. Em São Gonçalo, além do Nilo Peçanha, o movimento #ocupa está presente no Clelia Nanci, na Brasilândia, e no Pandiá Calógeras, no Alcântara.


Ao final do breve corredor que leva às dependências do prédio antigo e razoavelmente conservado, um livro de presença dos visitantes externos nos esperava em cima de uma mesa. Havia no livro apenas uma assinatura, o que era perfeitamente coerente com o ambiente de sossego que nos acompanharia até o fim de nossa permanência na escola.

Quem nos recebe é o estudante do 2º ano do ensino médio Luiz Carlos Silva de Sousa, 17 anos, morador do bairro Jardim Catarina. Já familiarizado com a abordagem da imprensa e de visitantes externos, imediatamente nos conduz para o pátio onde distribui três cadeiras para nos sentarmos e ali fazermos o nosso bate-papo. Como que já combinado, os outros colegas de ocupação, todos eles também estudantes adolescentes, nos observam de longe sem muita curiosidade, assim pelo menos nos fizeram transparecer.

- Começamos o movimento a partir da necessidade de saber o porquê das coisas, o porquê das salas superlotadas. Estamos há anos convivendo com a precarização da escola e com a indiferença do governo, que não conversa com a gente para sabermos as causas desse abandono - explica Luiz Carlos, sob o peso da responsabilidade de ser a principal liderança do #ocupanilo, influenciado até a medula pelo movimento secundarista paulista e pela primeira ocupação carioca na escola Mendes de Moraes, na Ilha do Governador.

Luiz Carlos é o que podemos chamar de adolescente padrão: cheio de sonhos, energia, esperança e dúvidas também. Seria, como tantos outros, mais um na multidão resignada se não partisse de si o interesse em acompanhar de perto o movimento de greve dos professores no início de março, na grande manifestação realizada na Alerj no dia 02 daquele mês.


- Eu não conhecia o movimento estudantil. Aquilo fez sentido para mim, abriu a minha mente, aprimorando a minha ideologia, o que eu já penso e acredito. Não é mais possível abaixar a cabeça, ficar quieto com o que está errado - disse, frisando que o movimento no estado é conduzido pelos estudantes através das entidades de representação como a UNE e a UBES.

A propagada crise financeira do estado que se arrasta desde 2015, atingiu em cheio os serviços básicos à população como saúde e educação. Nesse quadro semifalimentar, quem vem pagando a conta dos desmandos do governo é o funcionalismo público, que já teve o 13º salário parcelado, e está constantemente ameaçado de ter os vencimentos do mês cortados, como aconteceu com os aposentados em abril. No caso das escolas, os repasses para manutenção foram brutalmente reduzidos, piorando ainda mais a situação nas unidades onde já estava ruim.

- Nós queremos chamar a atenção do governo mas também queremos que a população saiba que chegamos a esse ponto devido aos superfaturamentos nas obras e licitações, por causa das isenções fiscais criminosas às empresas que já ultrapassam mais de R$ 130 bilhões - lembra Luiz, pontuando que o movimento #ocupa quer ir além dos muros das escolas e chegar ao grosso da opinião pública, como ocorreu em São Paulo ano passado por conta da reorganização escolar proposta pelo governador Geraldo Alckimin e que persiste após o escândalo dos desvios do dinheiro da merenda.

Depois de três semanas de ocupação no Nilo Peçanha, o que preocupa o movimento são ações de desmobilização promovidas pela Seeduc, principalmente o bloqueio do Rio Card, que tem contribuído para o esvaziamento das atividades na escola. Hoje existem 15 'residentes' fixos no Nilo Peçanha, que se revezam na manutenção do espaço e na cozinha com apoio de voluntários.


Outro desafio encontrado pelo movimento #ocupanilo foi o surgimento do seu oposto, o #desocupanilo, formado basicamente por estudantes do 3º ano do ensino médio e que cursam o pré-vestibular comunitário aos sábados na escola.

- Quero deixar de ser máquina que vem para a escola só para estudar teoria e não ter prática. Não sou boneco das autoridades, tudo que é direito eu quero. A luta faz a diferença, muda a vida. Não quero ficar calado com coisas erradas. A palavra certa é lutar - crava, com convicção, Luiz Carlos.

Os estudantes que ocupam o Nilo Peçanha resistem no espaço através de doações de alimentos e estudam minimizar os impactos do bloqueio do Rio Card criando um fundo para garantir o transporte dos estudantes. Segundo Luiz Carlos, os 15 residentes têm apoio irrestrito dos pais, que ajudam como podem. A página do movimento no Nilo Peçanha é o facebook/OcupaNilo.

Recomenda-se à boa educação levar presentes em uma visita. Por isso deixamos três livros de autores gonçalenses com o Luiz Carlos. Boa leitura e Boa sorte.

Colaboração de Fabiano Barreto.


#OCUPAÇÃO #NILOPEÇANHA #SÃOGONÇALO #CIDADE #FABIANOBARRETO

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