A Ilusão de Entrar no Outro
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A Ilusão de Entrar no Outro

Por Mira Pimentel


Jornal Daki com IA
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Há um momento da vida em que a gente descobre que ninguém entra em ninguém.

E não é por falta de vontade. É por limite.


Eu cresci acreditando que a humanidade era uma extensão de mim. Que sentir era uma linguagem comum. Que bastava abrir a porta — e o outro pisaria no meu chão com o mesmo cuidado que eu pisaria no dele.


Mas não.


As pessoas entram…e ficam na sala.


Não atravessam o corredor. Não chegam nos quartos onde a alma respira diferente.

E não é maldade —é incapacidade.


Somos universos fechados tentando simular pontes.


E quando essa ficha cai, não vem só lucidez…vem um certo cansaço de existir em coletivo.


Talvez por isso eu tenha chegado nesse lugar estranho: não quero mais decifrar ninguém. Não quero mais esse esforço de traduzir o intraduzível. Eu já sou um enigma suficiente para mim.


E enquanto isso… lá fora…


O estado inteiro parece viver a mesma coisa.


O Rio de Janeiro — esse corpo vivo que pulsa contradição —hoje também está sem alguém que o traduza por inteiro.


Um governador que sai. Um vice que já não está. Um sistema que tenta se reorganizar por dentro, em eleições indiretas, decisões que não passam pelo povo…, mas o atravessam mesmo assim.


Um estado sendo decidido em salas fechadas.


Como nós.


E talvez seja isso que mais doa: a sensação de que tudo está sendo conduzido sem profundidade —nem na política, nem nas relações, nem na escuta.


O carioca sente. Mesmo quando não sabe explicar.


Sente na instabilidade. Sente no custo da vida que aperta. Sente na gasolina que sobe, no cotidiano que pesa, na incerteza que não tem rosto.


Sente… mas não é compreendido.


E no fim… é isso.


Nem o estado entende o cidadão. Nem as pessoas se entendem entre si. Nem nós mesmos, às vezes, conseguimos nos traduzir por completo.


Então talvez o caminho não seja mais abrir todas as portas.


Talvez seja…

acender uma luz dentro e sentar em silêncio com quem souber ficar.


Sem invadir. Sem explicar demais. Sem prometer compreensão total.


Porque ela não existe.


E, estranhamente… há uma paz nisso.


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Mira Pimentel é cronista.

 

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