Contraste
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Por Paulinho Freitas

Imagem gerada por IA a partir do texto
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Saí de casa para pegar meu remédio regulador de pressão na farmácia popular. É impressionante como não damos a mínima para nosso semelhante, não notamos suas emoções. Aliás ninguém tá nem aí para ninguém. 

 

Logo na esquina vejo um rapazola de seus dezesseis anos, um buquê de flores na mão e lágrimas nos olhos. Deve ter levado as flores para uma das meninas do Clélia Nanci e tomou o maior toco. Lembrei de mim. Na minha adolescência eu gostava de dar flores também. Mas, só dava depois que já estava namorando. Levei muito toco também, com flores na mão, nunca. 

 

Caminhando sobre a ciclovia, porque não há calçada para pedestre, um casal  com roupas de ginástica era só romance. A cada passo que davam, um lascava um beijo no outro. Começou com uma bitoca e logo se transformou no maior amasso. Ali, no meio da ciclovia.  O rapaz das flores olhava as flores, olhava o casal naquele beijo apaixonado e chorava. Um choro sincero e triste. Um choro de amor. Talvez, aquele amor que nunca será esquecido. 

 

Na porta de uma lanchonete um garotinho faz pirraça, sapateia e grita com a mãe. Quer um salgadinho. E a mãe, sem dinheiro, sai arrastando o pobre guri pela rua dizendo que em casa tem almoço. Ele continua gritando e sapateando. Ele queria o salgado. A comida de casa era o que sobrou da janta. 


No restaurante, outra mãe reclama com o filho que não quer comer. No prato, bife, arroz e fritas, sua comida predileta. Mas ele não quer, prefere ficar jogando virtualmente com seus coleguinhas, num telefone de quase dez mil reais. A mãe reclama, mas sem nenhuma autoridade e também estava mais preocupada com as fofocas que a amiga do lado contava à respeito de outra amiga em comum. Se fosse o guri do salgado ela brigaria para ele parar de comer. 

 

Saindo do Pronto Socorro Central, um pai atravessa a rua em desespero. O filho está internado e quase sem esperança de sobreviver. Cruzou seu caminho outro pai, dando socos no ar pelo nascimento do primeiro filho. 


Por que um tem que chorar para o outro sorrir? Não dá para cada um do seu jeito, em sua condição, ser feliz ao mesmo tempo? 


Uns enriquecem à custa do sofrimento de outros. Mesmo cada vez mais ricos e com mais poder, querem mais riqueza e mais poder. O outro lado cada vez mais pobre, com mais deveres, menos direitos, menos oportunidades para estudo, saúde, educação, nem o ir e vir é mais respeitado. Estamos presos em casa enquanto quem deveria estar preso, está a solta e nos espreita pelas ruas. Vivemos num mundo de contrários, enquanto o mal avança o bem dá ré, acuado, amedrontado e só. Estou com dor na nuca. É a pressão. Vou para casa tomar minha medicação. 


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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.

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