A Era das Imagens que Mentem
- Jornal Daki
- há 5 minutos
- 3 min de leitura
Por Mira Pimentel

Vivemos um tempo perigoso.
Não porque a mentira nasceu agora. A mentira sempre existiu. O que nasceu agora foi a velocidade dela. A capacidade tecnológica de fabricar emoções em massa. De construir realidades paralelas com poucos cliques e alguma inteligência artificial.
Hoje uma fotografia já não é mais prova de nada. Um vídeo já não é mais garantia de verdade. Uma voz já não pertence necessariamente ao corpo que ouvimos.
E talvez este seja um dos momentos mais delicados da humanidade: o instante em que a aparência começa a substituir completamente a essência.
Criam encontros que nunca existiram. Fabricam proximidades políticas. Inventam diálogos. Produzem líderes mitológicos através de algoritmos emocionais.
E multidões acreditam.
Acreditam porque desejam acreditar. Porque a política deixou de ser debate coletivo e virou torcida emocional. Virou culto de personalidade. Virou espetáculo.
Não importa mais o projeto social. Não importa mais a dignidade humana. Não importa mais o compromisso com os pobres, com a educação, com a saúde, com a justiça coletiva.
Importa a foto. Importa a cena. Importa a sensação de força.
O poder passou a ser vendido como imagem.
E o mais assustador é perceber que parte da sociedade já não se importa se algo é verdadeiro. Desde que fortaleça sua narrativa, serve.
É aí que mora o risco dos tempos modernos.
Porque toda desumanização começa assim: quando a verdade deixa de importar.
Quando o outro deixa de ser humano e vira inimigo. Quando o discurso de ódio é tratado como coragem. Quando a crueldade é confundida com autoridade. Quando a arrogância é chamada de liderança.
A história da humanidade já mostrou inúmeras vezes onde isso termina.
Termina em exclusão. Em perseguições. Em violência simbólica. Em destruição coletiva.
E ainda assim continuamos repetindo ciclos.
Talvez porque muitos homens entrem na política não para servir, mas para dominar. Não para dividir oportunidades, mas para concentrar privilégios. Não para defender o povo, mas para construir impérios pessoais sustentados pelo medo e pela manipulação.
Esquecem que poder não deveria ser trono.
Poder deveria ser responsabilidade.
Um político deveria proteger os vulneráveis. Garantir direitos. Fortalecer educação, cultura, saúde, dignidade humana. Mas muitos transformaram o mandato em palco de ego.
E então surge a pergunta inevitável:
Onde vamos parar?
Até quando aceitaremos que a mentira emocional seja mais forte que a verdade? Até quando confundiremos autoridade com brutalidade? Até quando permitiremos que algoritmos decidam nossas percepções humanas?
E existe ainda uma pergunta maior. Uma pergunta que ultrapassa eleições, partidos e ideologias.
O que acontece com o espírito de quem vive apenas para o poder?
Porque dinheiro, cargos e influência pertencem à Terra. Ficam aqui.
Mas e depois?
O que sobra quando termina o aplauso? Quando termina o mandato? Quando termina o corpo?
Nenhuma inteligência artificial consegue fabricar paz espiritual. Nenhuma fotografia produz consciência. Nenhum discurso de ódio constrói grandeza verdadeira.
Talvez a grande tragédia humana seja essa: homens querendo governar multidões sem antes aprenderem a governar a si mesmos.
E enquanto isso, seguimos vivendo numa era em que as imagens mentem, os algoritmos manipulam, e a consciência humana parece cada vez mais cansada de procurar a verdade.
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Mira Pimentel é cronista.












































