O jardim que ninguém vê
- Jornal Daki
- há 4 horas
- 3 min de leitura
Por Mira Pimentel

Existe uma tristeza silenciosa que mora nos jardins abandonados.
Não falo apenas daqueles que ficam do lado de fora das casas. Refiro-me ao jardim invisível, aquele que cada um cultiva dentro de si. Ali florescem a serenidade, a coragem, a esperança e até o silêncio necessário para enfrentar os dias difíceis.
Quem não cuida do próprio jardim acaba sem lugar para descansar os pés da alma.
É impossível experimentar a beleza das flores quando nunca se teve tempo para arrancar o mato, regar a terra ou esperar a estação certa. Há pessoas que passam a vida inteira tentando mudar o clima do mundo, mas nunca aprenderam a cuidar do pequeno quintal que carregam dentro do peito.
Nossa primeira casa não é de cimento.
É o nosso temperamento.
É ali que moram a paz, a alegria, o equilíbrio e a capacidade de atravessar as tempestades sem permitir que elas destruam nossas raízes. O autocuidado, tão confundido com vaidade, é, na verdade, um exercício de sobrevivência. É aprender a descansar a alma sem depender das circunstâncias. É construir um abrigo interior onde as decepções batem à porta, mas nem sempre conseguem entrar.
Quem organiza a própria casa emocional descobre que seu maior patrimônio não está nas coisas que possui, mas na maneira como protege aquilo que é.
Enquanto isso, do lado de fora dos muros...
As contas continuam crescendo com uma velocidade que parece zombar do trabalhador. O arroz sobe. O feijão sobe. Os produtos de higiene sobem. O mercado inteiro parece ter descoberto uma escada que só conhece o caminho para cima.
E o café...
Ah, o café.
Durante décadas foi o companheiro mais democrático da mesa brasileira. Bastava um coador, uma chaleira e uma boa conversa para reunir amigos, vizinhos e famílias. Hoje, o humilde cafezinho parece disputar espaço com o antigo caviar. Tornou-se quase um artigo de luxo, servido com a mesma cautela de quem administra uma preciosidade.
Do bairro mais simples da Zona Norte aos endereços mais valorizados da Zona Sul, a sensação é a mesma: viver ficou caro.
Talvez por isso seja ainda mais urgente cuidar do jardim interior.
Quando tudo aumenta do lado de fora, não podemos permitir que a desesperança também aumente dentro de nós.
Os jovens precisam compreender isso. O futuro não se constrói apenas escolhendo uma profissão. Constrói-se aprendendo a cuidar da mente, das emoções, da própria consciência. Há jardins belíssimos por fora escondendo terrenos devastados por dentro.
E talvez seja essa a maior distração do nosso tempo.
Transformamos a política em campeonato. Há quem vista azul, quem vista vermelho, quem defenda um lado como quem canta o hino do time do coração. A torcida cresce. As discussões inflamam. Mas, enquanto disputamos a cor da camisa, esquecemos de olhar para a mesa da cozinha.
Ela continua esperando o arroz, o feijão e o café.
O jardim da democracia também precisa de jardineiros, não de torcedores. Cidadãos que saibam escolher, fiscalizar, cobrar e reconhecer quando as flores prometidas não passaram de sementes lançadas ao vento.
No fim, a terra é sábia.
Ela não pergunta em quem votamos.
Ela apenas devolve aquilo que cultivamos.
Talvez seja por isso que existam tantos jardins secos e tantas torcidas apaixonadas.
Parece que, ultimamente, temos dedicado mais tempo à cor da cerca do que à saúde das flores.
Porque jardins não florescem aos gritos.
Também não florescem na pressa, nem no abandono, nem na ilusão de que outra pessoa fará o trabalho que pertence a nós.
Florescem no silêncio das pequenas escolhas, na paciência de quem compreende que cada dia exige um novo cuidado, uma nova poda, uma nova esperança.
Talvez esteja aí o maior desafio do nosso tempo: queremos colher sombra sem plantar árvores, desejamos paz sem cultivar serenidade e exigimos bons governos enquanto negligenciamos o governo de nós mesmos.
No fim, a vida devolve exatamente o que encontra em nossas mãos.
Se levamos sementes, ela nos oferece flores.
Se levamos pedras, ela nos ensina o peso de carregá-las.
Por isso, antes de escolher a cor da bandeira, escolha a cor das flores que deseja ver brotar no seu jardim.
Porque governos passam. As estações também.
Mas o jardim da alma permanece esperando, todos os dias, pelo seu verdadeiro jardineiro.
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Mira Pimentel é cronista.












































