A luz que permanece
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A luz que permanece

Por Mira Pimentel


Arte Jornal Daki com IA
Arte Jornal Daki com IA

Há pessoas que passam pela Terra ocupando um espaço. Outras, porém, tornam-se espaço dentro de nós.


Ao saber do documentário sobre Preta Gil, pensei menos na artista e mais na mulher. Na mulher que escolheu viver sem pedir licença, que fez do próprio corpo uma bandeira de aceitação, da própria voz um abrigo para quem nunca se sentiu pertencente e do amor uma insistência, mesmo quando o amor lhe devolveu espinhos.


Sua existência parece dizer uma verdade antiga: diante da vida, somos todos iguais.

Não importa a cor da pele, a fortuna herdada, o sobrenome, a tribo, a religião, a fama ou o anonimato. Somos iguais quando a dor nos visita. Somos iguais quando o medo nos atravessa. Somos iguais quando precisamos de um abraço. E, sobretudo, somos iguais diante da finitude.


Preta nos lembrou que viver não é esconder as fragilidades. É atravessá-las com dignidade.

Sua caminhada ecoou para além dos palcos. Reverberou como quem reconhece a dignidade de toda forma de vida. Pessoas, animais, árvores, flores... a existência inteira pede respeito. Somos fios da mesma trama, respirando o mesmo ar, sonhando a mesma esperança de sermos aceitos exatamente como somos.


Também foi uma mulher que compreendeu que a cidadania não se exerce apenas pelo discurso. Quando julgou necessário, levou sua voz aos espaços de decisão, cobrou o cumprimento de direitos, defendeu causas públicas e ajudou a ampliar debates que alcançam milhões de brasileiros. Não para dividir o país entre vencedores e vencidos, mas para lembrar que leis existem para proteger pessoas e que a democracia só amadurece quando cada cidadão encontra coragem para participar dela.


Talvez este seja um tempo de recordar algo essencial. Igrejas existem para anunciar o amor. A política existe para servir ao bem comum. Quando a fé se transforma em intolerância ou quando a política se reduz ao fanatismo, perdemos a capacidade de reconhecer o outro como irmão. Nenhuma ideologia deveria ser maior que a vida humana.


Somos um povo tecido por muitas origens. Misturam-se em nós raças, culturas, sotaques, crenças, histórias e maneiras de enxergar o mundo. Essa diversidade nunca foi nossa fraqueza; sempre foi nossa maior riqueza. As diferenças não foram criadas para erguer muros, mas para ampliar horizontes. É no encontro com quem pensa diferente que a existência ganha profundidade e a consciência aprende a amadurecer.


Seu pai, Gilberto Gil, em diferentes momentos, sempre demonstrou enxergar na filha uma mulher que viveu intensamente. E talvez essa seja uma das definições mais belas de felicidade: não a ausência de sofrimento, mas a coragem de continuar sendo amor mesmo quando a vida oferece perdas.


Preta foi forte.


Foi riso.


Foi lágrima.


Foi voz para muitos que ainda não conseguiam falar.


Foi luz dentro da própria família e fora dela.


Recebeu carinho de multidões e também conheceu a dor das decepções humanas. Experimentou a doença sem abandonar a esperança. Continuou bela não apenas na aparência, mas na forma de enfrentar cada amanhecer.


Há almas que ensinam enquanto respiram.


E continuam ensinando depois que silenciam.


Por isso, acredito que algumas mulheres não morrem; transformam-se em referências permanentes da resistência humana. Assim como Gal Costa, Elis Regina, Rita Lee, Leila Diniz e tantas outras que recusaram o silêncio imposto ao feminino, Preta Gil passa a ocupar esse território onde a arte encontra a coragem.


Cada uma, à sua maneira, desafiou convenções, rompeu muros e pagou preços altos por ser quem era. Hoje são faróis para quem ainda atravessa tempestades.


Confesso que também caminho entre tropeços. Carrego minhas dores, minhas perdas, minhas solidões. Mas existem luzes que nos encontram quando pensamos estar perdidos.

A luz deixada por Preta Gil é uma delas.


Ela me recorda que a alma não adoece quando continua amando.

Que a coragem pode ser delicada.


Que a vulnerabilidade não diminui ninguém.


Que viver em comunidade é reconhecer a humanidade do outro antes de qualquer rótulo.

E que a maior vitória de um ser humano talvez não seja vencer a morte, mas deixar tanto amor espalhado que a própria ausência continue iluminando o caminho de quem ficou.

Algumas vidas terminam.


Outras permanecem.


Preta Gil pertence às que permanecem.


E, como canta Caetano Veloso, "Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome." Talvez essa frase nunca tenha sido apenas sobre a fome do corpo. É também sobre a fome de respeito, de justiça, de dignidade e de amor. Enquanto compreendermos isso, continuaremos merecendo o nome mais bonito que existe: humanidade.


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Pimentel é cronista.

 

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