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Quando a urna se fecha, o Brasil continua

há 2 horas
3 min de leitura

Por Mira Pimentel


Foto: Arte Jornal Daki com IA
Foto: Arte Jornal Daki com IA


O segundo turno de 2026 não será apenas uma escolha entre dois nomes.


Flávio Bolsonaro e Lula disputarão a Presidência, mas o que está em jogo é muito maior: qual projeto de Brasil queremos para os próximos anos?


De um lado, uma visão profundamente ligada ao mercado e ao pensamento capitalista, que nos obriga a perguntar: o que faremos com nossas terras, nossas riquezas naturais e nossos minerais estratégicos? Um país continental não pode tratar seu patrimônio como simples mercadoria. Soberania também é decidir como e para quem nossas riquezas serão utilizadas.


Há ainda algo que me preocupa profundamente: a mistura entre fé e política. Muitos brasileiros de fé foram convencidos de que determinado projeto político representa os valores de Jesus. Mas Jesus não é cabo eleitoral. A fé não pode ser transformada em instrumento de poder, nem a Bíblia utilizada para justificar ódio, intolerância ou interesses políticos.


Uma parcela importante do campo bolsonarista é formada por pessoas profundamente religiosas, muitas delas cristãs e evangélicas. São pessoas que procuram na política uma representação dos seus valores, e isso, em uma democracia, é legítimo. O que não pode ser legítimo é a manipulação da fé.


Quando a fé é manipulada, o manipulado também pode se transformar em manipulador. E assim a mentira passa a ocupar o lugar da verdade.


Eu já vi, na gestão de Jair Bolsonaro, episódios que me fizeram questionar preparo, capacidade administrativa, respeito às instituições e responsabilidade diante de crises nacionais. Vimos uma condução extremamente controversa da pandemia, conflitos sucessivos com instituições da República e um ambiente político marcado pela desinformação e pela radicalização. O Tribunal Superior Eleitoral declarou Bolsonaro inelegível por oito anos por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação na reunião com embaixadores, em 2022.


Também houve uma deterioração ambiental grave. Segundo dados do Prodes/INPE, o desmatamento na Amazônia Legal chegou a 13.038 km² em 2021 e 11.594 km² em 2022.


Não se trata de apagar os erros de nenhum governo. Não existe governo perfeito. Mas existe uma diferença entre reconhecer problemas e transformar o país em palco permanente de mentira, conflito e disputa ideológica.


Porque chegamos a um ponto especialmente perigoso: a mentira, quando repetida incessantemente, consegue parecer mais poderosa do que a verdade.


É assim que se destrói reputação.É assim que se fabrica inimigo.É assim que se transforma adversário em inimigo mortal.É assim que uma sociedade vai perdendo a capacidade de conversar.


Uma mentira compartilhada milhares de vezes parece verdade para quem já não procura a fonte.


E talvez um dos maiores desafios brasileiros seja justamente recuperar o valor da verdade.

Do outro lado está Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a continuidade de seu governo. Lula também deve ser cobrado, criticado e fiscalizado como qualquer governante em uma democracia. Mas é impossível ignorar alguns resultados objetivos.


O Brasil fechou 2025 com 5,6% de desemprego, a menor taxa anual da série histórica iniciada em 2012, e 103 milhões de pessoas ocupadas. No trimestre encerrado em agosto de 2026, a desocupação estava em 5,3%.


O Bolsa Família foi retomado e reestruturado em 2023, com atenção especial a crianças, adolescentes, gestantes e à composição familiar.


Na área ambiental, os números também mostram mudança: o Prodes registrou redução expressiva do desmatamento da Amazônia nos anos seguintes a 2022. Em 2024, a redução em relação a 2023 foi de 28,09%, e os dados mais recentes apontaram nova queda em 2025.

Isso não significa que todos os brasileiros estejam vivendo bem, que todos os problemas tenham sido resolvidos ou que Lula esteja acima das críticas. Democracia não é culto a governante. É cobrança permanente.


Mas democracia também exige memória.


Não podemos escolher o futuro esquecendo o passado.


O que precisamos é de um novo pensar: menos fanatismo, menos mentira, menos manipulação da fé e mais responsabilidade com o Brasil.


Porque a urna se fecha.


O Brasil, não.


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Mira Pimentel é Cronista

 

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