E a vida que é maravilhosa
Por Oswaldo Mendes

E como dizer que a vida não é boa?
Estudei no Nilo Peçanha. Minha primeira professora foi Nilcéia da Silva Vasconcellos, mãe do também saudoso Zé Carlos Vasconcellos, do Nosso Pedaço. Dali passei para o Ginásio Cenecista Orlando Rangel, pois filho de ex-combatente tinha bolsa de estudos. O regime era militar e a cidade fervia. MDB e ARENA disputavam os votos. Os sindicatos e os partidos de esquerda, estes agindo na clandestinidade, tinham grande receptividade popular.
Havia uma gigantesca rede de apoio aos partidários. Nesse período, também se dizia que só se comia uma galinha quando um dos dois estava doente. A merenda era, no máximo, pão com manteiga e açúcar cristal. Quando havia prêmio, era pão com mariola.
A comida mais comum era angu. Carne, quando se tinha, era bucho, rins e assemelhados. Eu vendia cafifa, fogos, picolé e fazia frete em feiras. Isso, claro, muitos dos meus vizinhos da época também faziam.
Biscoitos nós recebíamos do senhor Claro, que era motorista de uma fábrica de biscoitos, a Aymoré, e os trazia para doar às famílias. Era a alegria de muitos. Para ir à praia, íamos a pé até a Praia do Barreto ou Pedrinhas. Mas havia um senhor, Armando, que sempre levava todos à praia na caminhonete dele. Lá tinha o bar do famoso Tenente Hélio.
A Baía de Guanabara salvou muita gente da fome. Camarão, siri, cocoroca e diversos outros peixes eram encontrados em abundância.
Nas matas da região, encontrávamos frutas. Áreas livres para o futebol tínhamos muitas, mas o difícil era encontrar quem tivesse uma bola. E, quando tinha, era uma bola dente de leite, furada. Quem recebeu uma bolada dela deve ter a marca na alma até hoje.
No Carnaval, tínhamos o Bloco do Seu Vadinho, aqui na rua, Cruzamento do Amor, Porto da Pedra, Bloco do Leão e Calça Lee.
Ao terminar o ginásio, fui estudar no Macedo Soares, onde fiquei um ano. Tinha que trabalhar para conseguir o dinheiro da passagem. Nesse tempo, a maioria dos amigos já tinha parado de estudar por necessidade econômica.
Das minhas irmãs, Zélia já tinha concluído o curso normal e passado para o Estado como professora. Angelina se formou nutricionista e foi trabalhar no interior de São Paulo. Ethel terminava Química, na UFF, e também foi trabalhar. Nilda se formou professora e passou imediatamente em concurso para o Estado. Seu trabalho era no Zumbi. Não tinha ônibus. Todo dia, a pé.
Com muito esforço, nossa família começou a romper um destino que se repetia havia mais de três séculos: trabalhos braçais, de ama ou de empregado doméstico, subempregos. Negros com nível superior, neto de um preso político em função da Revolta da Chibata, filho de um Comunista e de uma mãe Ialorixá.
Posteriormente, fui estudar no CEBRIC — Brigadeiro Castrioto, no curso técnico em Eletrônica. De lá saiu a Equipe de Som Shadowns. Homenageio todos os professores e professoras de toda a minha vida, de Nilcéia da Silva Vasconcellos à professora Mathildes e ao professor Jorge Santana.
Conheci o CEBA — Centro de Estudos Brasil-África — nos seus primeiros passos. Joilton, Dara e Herimar eram crianças, e eu, adolescente.
Diversos alunos foram convidados para o curso de oficial da Polícia Militar, inclusive meu amigo Evaldo. Vários dos nossos colegas foram para o Corpo de Bombeiros e outros para a PMERJ.
Minha turma tinha dezesseis homens e uma menina. Na época, o vestibular era integrado, pela CESGRANRIO. Quinze passaram para Engenharia, e meu nome estava entre os aprovados.
Era impossível fazer Engenharia sem um gigantesco lastro financeiro. Nessa hora, conheci uma pessoa que muito me ajudou: o sargento Suamir, do 7º BPM, com quem fui trabalhar como segurança de bailes. Ali também conheci o sargento Travassos, capoeirista. Trabalhei ainda na Equipe de Som Gran Rio, com seu Milton. Batata e Edmilson, por anos, me mantiveram na faculdade.
No segundo semestre de 1978, entrei na Engenharia. No primeiro semestre de 1984, estava formado.
Houve muito esforço, mas houve também apoio, a explicação que o estudo era o principal, isto pelos pais, professores e gente que estendeu a mão. Sei quanto tudo isso fez diferença para que eu pudesse continuar.
Nesse ponto, as questões financeiras já tinham melhorado muito, mas ainda havia as questões políticas e o racismo. O país continuava nas trevas.
Em 1985, falecia Claudino José da Silva, amigo da família.
No mundo do samba, conheci Ney PP, Enir, Paulo Cesar Portugal, Maurição, Ilson Fernandes, Cícero, Ivone, Arnaldo, Lilia, Paulo Pezão, Lambel e diversas outras pessoas.
Muitos dos meus colegas de perto de casa já estavam fazendo cursos técnicos ou faculdade. O círculo vicioso estava se quebrando.
Fui vendo minha família, vizinhos e meus amigos abrirem esses novos caminhos e entendi o quanto uma oportunidade pode mudar uma vida. E também como essa mudança incomoda quem acha que cada um deve permanecer no lugar em que nasceu. Era alegria para alguns, mais pobre, e a doença se alastrando em outros.
Um formado único na família passa a ser referencial de Excelência: Benchmarking. O ciclo não para mais. Logo depois teremos o primeiro da família com pós-graduação Lato sensu e em seguida alguém com a Strictus. E tomara que a cada degrau que suba, que mantenha a consciência de que ele é fruto de uma luta ancestral. Kaizen!
É aí que aparece o problema da frustração e do ódio, que se manteve em silêncio por anos e décadas.
Há quem aceite a empregada dentro de casa, mas não aceite o filho dela na mesma universidade que o seu. Na cabeça dessa gente, quem era filho de lavadeira não poderia fazer uma faculdade. A empregada deveria criar seus filhos para serem serviçais, subalternos. Filho de pobre, negro, mulher e suburbano não podiam estudar, ter independência. Mão de obra barata para realimentar o ciclo escravagista.
Os netos das empregadas fazem ou pretendem fazer universidade. O Bolsa Família impede que os escravistas continuem buscando “meninas para criar”, colocando-as para trabalhar sem qualquer vínculo trabalhista e mandando-as embora quando ficam velhas.
Hoje, apesar de todas as dificuldades, existe uma possibilidade real de melhorar de vida. E é isso que muita gente não aceita. Querem que o filho da empregada continue servindo, recebendo pouco e sem condições de escolher outro caminho. Porque quem consegue estudar, ter uma renda e conquistar independência pode dizer não à exploração.
Na minha visão, esse é o motivo do ódio. Não é e nunca foi contra Lula. É contra o seu vizinho que conseguiu sair do círculo vicioso, de uma história de mais de três séculos de correntes e porões de navios negreiros. Essa gente tem ódio do próximo.
Os bancos escolares têm a chance de abrir e de fechar portas. Novos caminhos podem ser percorridos, e também dão a chance de fechar às portas da nesciência, mas não da ignorância.
Não há como não agradecer aos meus professores, pesquisadores e amigos: Zé Rodrigues, Saulo Barbará, Gilson, Osvaldo Quelhas, James, Isa, Gusmão, Bruno, Waldeck Carneiro, Mara, o saudoso Nichioka, Thaumaturgo e Lúcia Xavier. Assim como as pessoas que sempre estiveram me apoiando quando tento escrever: Rujany Martins, Figueiredo, Aloísio, Alex Alves, Dayse, Patrick e Helcio.
A vida é maravilhosa. Quero que os filhos e netos de outras famílias também tenham a oportunidade de descobrir isso, de estudar e de escolher seus caminhos.
A luta continua...
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Oswaldo Mendes é engenheiro e professor.









































































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