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Eu perdi

*Por Patrícia Sodré

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Eu hoje acordei com um sentimento de derrota. Sinto que eu perdi...


Perdi porque, como amiga, sobrinha, colega de trabalho, prima ou irmã, eu não consegui furar a minha bolha e me aproximar de você, chamar pra tomar um café, conversar sobre a vida e sobre a política. Sobre política sim, porque, por mais que você não goste, é algo muito importante. Gostando ou não do assunto, a política rege as nossas vidas, direciona o nosso pensamento e organiza a vida social. E nós somos seres naturalmente políticos.


Perdi porque não consegui te convencer que nunca existiu nas escolas um tal “kit gay”, mamadeira de pi@%&, ideologia de gênero, sexualização de crianças, e Paulo Freire. Infelizmente, nas escolas públicas não existe Paulo Freire... aliás, ele passa longe! Eu sei disso porque estou na escola pública há mais de trinta anos. Paulo Freire, que sonhava com uma educação pautada na autonomia e no senso crítico do indivíduo está sim, presente nas escolas das elites, pois as crianças, filhos dos ricos, precisam ser criativas, questionadoras e líderes. Para as nossas crianças, das classes populares, sobra ser a “mão-de-obra barata” e precarizada, obedecer, andar de cabeça baixa diante do patrão e ainda acreditar que isso é natural, que assim Deus quis e que não há outro caminho. Freire é o escritor mais estudado nas universidades do mundo; aqui é tratado como bandido por pessoas que não leram sequer uma obra sua. É inacreditável.


Perdi porque, depois de ver um familiar entubado e semanas depois morrer, eu não consegui te sensibilizar e te mostrar o quanto me doeu e ainda dói ver o presidente do meu país imitar uma pessoa sem conseguir respirar, dizer que não é coveiro, que isso tudo é “mi-mi-mi”, frescura. Eu perdi.


Eu preciso falar sobre a Vitórya Melissa e sobre o machismo.



A Vi era uma menina tão cheia de sonhos e com tanta doçura. Sua vida foi interrompida por uma pessoa que não aceitou o seu NÃO, que, por tantos outros fatores (que eu não posso avaliar), sentiu-se no direito de subjugá-la. Ouso dizer, sem medo de errar, que também por já ter naturalizado a ideia de que a mulher tenha que ceder aos desejos do homem por ser inferior, por ser fruto de “uma fraquejada”, que merece” receber menor salário porque engravida”, mesmo exercendo a mesma função, e coisas do tipo, como pensa grande parte dos homens.


Talvez eu não tenha te contado que precisei me afastar do Facebook depois que uma enxurrada de comentários maldosos e desumanos foram colocados, por apoiadores do atual presidente, na página da Vitórya. Ali ela foi violentada pela segunda vez. Eu não entendia e não entendo como alguém pode ser alvo de tanto ódio apenas por ter um pensamento político diferente. Sinto náuseas só de lembrar o que eu li... ontem o meu voto foi também uma homenagem a ela.


Eu sempre fui atraída pelas questões sociais e pela política, sempre gostei de aprender e conversar com as pessoas. Lembro de um dia travar um diálogo com um primo apoiador do PSDB, coisa normal. Hoje tenho medo. Tenho medo de externar minha posição política e ser agredida com uma paulada na cabeça, como a moça em Angra dos Reis ou com um tiro, como o rapaz em sua festa de aniversário em Foz do Iguaçu, ou como em tantos outros casos. É isto o que chamamos fascismo. É quando vemos no outro, não uma pessoa que pensa diferente de nós, mas um inimigo que precisa ser eliminado, metralhado como disse certo dia o presidente.


O que me move a escrever pra você hoje são os sentimentos de fracasso e o medo.

Tenho medo dessa onda fascista que está se enraizando em nosso país.


Não pode ser “Deus acima de todos”, porque há àqueles que são ateus ou que entendem a divindade de maneira diferente, mas todos precisam ser respeitados porque são cidadãos. A Democracia deve estar acima de todos e Deus na fé e no coração de cada um.


O número de religiosos eleitos para assumir o legislativo é gigantesco e, com o apoio do atual presidente, fazem dos púlpitos das suas igrejas os seus palanques eleitorais. Esses mercadores da fé disseminam todo tipo de preconceito, a negação da ciência, a intolerância religiosa e hoje assumem a grande maioria das cadeiras das câmaras estadual e federal, do senado, de grande parte do executivo e do judiciário. Qual o impacto disso em nossa vida? Talvez nenhum na sua, talvez pouco na minha, mas, certamente, causará um grande estrago ou um entrave na vida daquelas pessoas que não se “encaixam” nos padrões aceitáveis por eles. Alguns poucos exemplos são a chamada “a cura gay”, a “evangelização” dos povos originários, as pessoas que seguem as religiões de matrizes africanas etc. Como disse o próprio presidente, as “minorias devem se curvar às maiorias”. Para aquele indivíduo que tem um filho ou uma filha gay, significa que pode “corrigi-lo” com umas pancadas. Para aquele religioso sem senso crítico, soa como uma autorização para destruir os centros de umbanda e candomblé. Em uma sociedade dita “cristã”, as maiorias deveriam acolher e proteger as minorias. Acho que Jesus concordaria comigo...


Toda posição política impacta em nossa vida e a neutralidade também é uma posição.


Quando “se passa a boiada”, como sugeriu o ex-ministro do meio ambiente e hoje eleito deputado federal por SP, comemos diariamente mais agrotóxico, sentimos, em consequência do desmatamento, mais calor, a alta nos preços dos alimentos e da energia elétrica por falta de chuvas. Quando se vota em alguém que “passa a boiada”, se assina a autorização para o extermínio dos povos indígenas, para o garimpo ilegal, para as madeireiras que extraem indiscriminadamente e, para morte daqueles que lutavam contra tudo isso como Dorothy Stang, Chico Mendes, Dom Phillips, Bruno Pereira e tantos outros.


Eu me sinto fracassada por não ter tido a oportunidade de te falar sobre os perigos, para todos nós, dos ataques à democracia, ao estado democrático de direitos, às instituições. Como no dizer de Winston Churchill, a democracia é o pior dos regimes políticos, mas não há nenhum sistema melhor que ela.


Em outros tempos, escolher entre este ou aquele candidato era uma decisão democrática, sobre a qual, por mais que discordássemos, precisávamos aceitar e respeitar. Hoje, no Brasil de 2022, a nossa escolha está entre a civilidade e a barbárie, entre a democracia e o autoritarismo, entre a empatia e a indiferença, entre o ódio e o diálogo. Em 2018 eu também fiquei do lado dos que perderam, mas te confesso que nunca me atraiu o lado dos vencedores.


*Patrícia Sodré é professora da rede pública de ensino.

 

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