Liberdade, pelo amor de Deus
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SÃO GONÇALO DE AFETOS


Por Paulinho Freitas

 

Imagem gerada por IA
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Quando desci do ônibus vi que estava acontecendo uma rodada samba no Passeio Público. No palco,  Cassiana Pérola Negra botava todo mundo pra sambar com o habitual talento. O público era basicamente composto pelo povo preto e não me passou despercebido, nem a ninguém que ali se encontrava, dois rapazes que sambavam com destreza e elegância, com um sorriso que era a própria imagem da felicidade. O domingo estava perfeito. Dia lindo e todo mundo feliz. 


Ao entrar no teatro percebi que nem tudo são flores. Vi que noventa por cento ou mais do público presente era branco. Me senti voltando no tempo, me vi escravo, servindo a mesa da casa grande, enquanto no terreiro, meu povo batia macumba e cantava pros orixás. Fiquei pensando nisso a peça toda, nem consegui me concentrar. Pensava no samba de Jorge Aragão: 


“...Não vai no de serviçose o social tem dononão vai...” 


A desigualdade hoje, continua muito parecida com a de  um certo dia 14 de maio. Me senti mal com esta constatação e um sentimento ruim foi tomando conta de mim e o samba da Mangueira do ano dois mil me deu outra porrada: 


“...500 anos Brasil e a raça negra não viu o clarão da igualdade fazer o negro respirar felicidade.” 


Mas, “..O Negro que nunca se curva e de cabeça erguida faz seu caminhar.”  E através de muita luta, pois pra chegar em qualquer lugar na sociedade o negro percorre o dobro do caminho, ainda tenta equilibrar o jogo.  


Quando saímos do teatro e enquanto esperávamos o ônibus para voltarmos a São Gonçalo, vi muita gente saindo apressada, afinal era domingo e o trabalho na segunda feira começa cedo e o negro tem que chegar primeiro que todo mundo no trabalho e muitos daqueles e daquelas que passavam apressados, ao chegar em casa ainda teriam que passar os olhos nos livros ou terminar algum trabalho da faculdade. 


Apesar de trabalhar, estudar muito e continuar construindo este país, continuamos a sermos seguidos por seguranças dentro do supermercados e shoppings, continuamos a morrer covardemente em operações policiais e a sermos suspeitos de qualquer crime só por estarmos na rua, exercendo nosso direito constitucional de ir e vir.  


Depois de mais de cem anos daquele 13 de maio, mudam-se as leis, criam-se regras e demagógicas normas de convivência, mas enquanto alguns de nós cantava samba e outros poucos como eu assistia a uma peça de teatro, mais uma pessoa negra morria, assassinada por aqueles que a deviam proteger, só porque tinha um carro branco, semelhante ao carro que eles perseguiam. Saímos de casa sem saber se teremos a graça do retorno ao lar, sãos e salvos. 


A alegria daquele treze de maio foi imensa, mas a sensação de abandono que o dia 14 nos trouxe, ainda perdura. Nada mudou. 

 

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