O Filme do Mocinho
- Jornal Daki
- há 3 minutos
- 2 min de leitura
Por Mira Pimentel

“Aqueles que gritavam contra o sistema…”
No fim, talvez o sistema só tivesse trocado de gravata.
E eis que surge o mocinho da pátria.Nem sei mais qual número ocupa na escadinha dos filhos do capitão — três, quatro, cinco? Pouco importa. No bolsonarismo familiar, parecem temporadas de uma série confusa onde os personagens vivem repetindo o mesmo roteiro: gritos, patriotismo performático e algum escândalo financeiro no intervalo comercial.
Mas confesso: ouvir a voz suave do guerreiro moralista foi uma experiência quase espiritual.
Tão calmo. Tão gentil. Tão empático.
Chamando o banqueiro de “irmão”. Consolando o dono do cofre.Lamentando as perseguições sofridas pelo banco milionário enquanto cobrava cifras astronômicas com delicadeza de quem pede açúcar emprestado ao vizinho.
Curioso.
Porque no palco político a voz costuma ser outra:gritos, acusações, dedos apontados, demagogia inflamada para plateias religiosas cansadas e assustadas. Um espetáculo permanente onde sempre existe um inimigo pronto: o comunismo imaginário, os pobres assistidos, o trabalhador organizado, o operário nordestino que ousou atravessar a porta da história.
Ah… o operário de quatro dedos.
O homem que saiu da fome, da seca, da miséria e do abandono estrutural. Semi-analfabeto, como gostam de repetir com desprezo os doutores da moral. Mas justamente por ter conhecido a humilhação da pobreza, construiu um discurso voltado para quem vive esmagado pelo sistema — o mesmo sistema que agora aparece abraçado pelos “anticorrupção” em ligações afetuosas com banqueiros investigados.
Sim, governos erram. Todos erram. Há falhas, contradições, acordos tortos e frustrações históricas.
Mas existe algo tragicômico em assistir quem passou anos berrando contra “o sistema corrupto” surgir agora chorando as mágoas do mercado financeiro, defendendo banqueiros e negociando milhões como quem comenta o clima.
E o filme?
Ah, o filme…
Disseram que querem milhões para produzir a epopeia patriótica. Espero sinceramente que seja comédia. Porque drama já virou exagero.
E aqui entra a ironia mais deliciosa: enquanto o cinema brasileiro comemorava internacionalmente o reconhecimento de Fernanda Torres, com produções feitas com orçamentos muito menores e carregadas de arte, sensibilidade e memória social… por aqui sonham com um megaprojeto milionário para transformar soluços políticos em roteiro heroico.
Tomara que no final tenha ao menos qualidade cinematográfica.
Ou talvez nem precise.
Porque a piada já veio pronta.
O homem que gritava contra o sistema acabou abraçado ao cofre.
E talvez o último ato desse filme seja exatamente esse:o mocinho não morre como herói…morre engasgado no próprio discurso.
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Mira Pimentel é cronista.












































