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Por dentro

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Por Paulinho Freitas

Gerada por IA
Gerada por IA

No meu cantinho do sofá, como de costume, divago sobre a vida e suas questões, sobre o que sinto e o que sentem os de minha condição periférica, proletária e não pertencente as classes dominantes. 


O que passa na cabeça de Seu Jorge, que Gonçalense foi, por algum tempo de sua vida, quando entra no palco e vê milhares de pessoas cantando junto com ele aquela música que ele fez? O nó na garganta é inevitável e uma peça deve ser encenada no palco de sua mente. Cada dia de dificuldade, suor e estudo até chegar àquele momento é um ato e cada música que canta compõe a trilha. No final de cada show, a vibração solitária e o grito mudo:


“Consegui!” 


Na tv passa uma partida entre Real Madri e Atlético de Madri. Vinícius Junior, que saiu de São Gonçalo ainda um guri, passou pelo Flamengo e logo passou a integrar o elenco de um dos maiores times do planeta, fez dois gols. É a estrela maior do time, com expressivos números de aproveitamento em cada fundamento do futebol. O que será que ele sente ao ver o mundo todo o aplaudindo, até aqueles que teimam em tentar diminui-lo com ofensas racistas, e o fazem por não tê-lo em seus times? Toda imprensa especializada falando nele, em cada roda de conversa, seja nos salões do palácio, seja na mais humilde birosca num canto qualquer do mundo, seu nome é lembrado. Será que ele também lembra das vezes em que foi preterido por sua cor de pele, pelo bairro que morava, pela aparência não tida como modelo ideal de alguém e por dentro se emociona, vibra sozinho ao final da partida, e como seu Jorge exclama para sí mesmo, dando um pulo imaginário com o punho fechado:


“Consegui!?” 


Passo numa banca de jornal no centro de São Gonçalo, agora estão mais para pequenas lojas de departamentos, vendem de um tudo, menos jornal e lá, encostado no balcão, como qualquer mortal, a luz que anda por São Gonçalo e pelo mundo chamada Altay Veloso. Rosto sereno, olhar pensativo, parece sempre criando alguma coisa, será música, será um livro, um musical? Vai saber. Passo por ele e levo um pouco daquela paz que ele transmite comigo.


O que será que ele sente ao ver chegar a seu portão, ali, no Porto da Pedra, todos os grandes cantores e cantoras deste país, músicos, bandas etc, para pedir-lhe uma composição, das milhares que deve ter guardadas, para se transformar num novo sucesso? Deve lembrar do tempo em que tocava em bar e só tinha um violão e um sonho, que agora se realiza e se renova.


A cada composição deve lembrar de cada porta que se fechou, cada luta que travou como um Orixá, no que, de certo, vai se transformar no dia em que for chamado ao orum, até estar ali, numa banca de jornal, comprando um pacotinho de fumo, vendo uma pessoa passando e cantarolando uma música sua, sem saber que a alegria de cantar aquela canção foi proporcionada por ele, que ainda se emociona e não se acostumou a esta corriqueira cena. Aquela gota de lágrima que rolou por seu rosto naquele momento é um grito silencioso, que depois de percorrer todos os canais emocionais de seu corpo, sai, olhos à fora, para ecoar no mundo:


“Consegui!” 


Fico muito feliz em saber que este silencioso grito é dado por muitos ilustres, artisticamente falando, Gonçalenses. Niterói é Cidade Sorriso, São Gonçalo, é a Cidade Talento! 


E tenho dito! 


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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.

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