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'Um Defeito de Cor não é uma contra-história', diz Ana Maria Gonçalves

Primeira mulher negra na ABL defende que narrativas de autores negros disputam o sentido da história do Brasil, não são versões marginais; mercado literário ainda tem lacunas, mas avança


Valter Campanato/Agência Brasil
Valter Campanato/Agência Brasil

A escritora Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL), defende que obras de autores negros não devem ser vistas como uma "contra-história", mas como a própria história do Brasil contada por outras perspectivas.


Em entrevista à Agência Brasil durante o Festival Latinidades, em Brasília, a autora de "Um Defeito de Cor" afirmou que seu livro não é uma versão alternativa da narrativa oficial, mas uma disputa pelo mesmo lugar que a história sempre ocupou, contada principalmente por homens brancos.


O romance, de 952 páginas, narra a saga de Kehinde, uma mulher negra sequestrada no Reino do Daomé (atual Benin) e escravizada na Bahia. Publicado em 2006, o livro é considerado um dos mais importantes da literatura contemporânea e inspirou o samba-enredo da Portela em 2024.


Para Ana Maria, narrativas como essa ajudam a sociedade a compreender a permanência do racismo e a necessidade de políticas como as cotas raciais.


A autora também rejeita o rótulo de sua obra como "literatura panfletária" e destaca a mudança no mercado editorial nas últimas duas décadas. Ela cita autores como Conceição Evaristo, Jefferson Tenório e Eliana Alves Cruz, e observa que uma nova geração de mulheres negras escrevendo na periferia de São Paulo já se insurge fora dos polos tradicionais.


"A diversidade é bem-vinda também para quem só está buscando lucro", afirma.


No entanto, a jornalista Waleska Barbosa, mediadora do debate, alerta que o avanço ainda é limitado. Publicar é caro, e a circulação, a crítica e as premiações ainda não acompanham o crescimento.


Além disso, episódios de racismo continuam a marcar a trajetória de escritoras negras, como os casos de Lilia Guerra, acusada injustamente de roubo na Flip, e de Conceição Evaristo, que segue sujeita ao racismo cotidiano mesmo após ser homenageada em uma grande exposição.


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