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Não Há Mais Daqueles Dias

Por Mira Pimentel


Arte Jornal Daki com IA
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Há poemas que envelhecem conosco. Não porque fiquem antigos, mas porque passam a nos compreender melhor do que nós mesmos. Foi essa sensação que tive ao reler "Não Há Mais Daqueles Dias Extensos", de Cecília Meireles. A pergunta que o poema me deixou não é literária. É profundamente humana.


Quando foi a última vez que você esperou um entardecer sem olhar para o relógio? Quando acompanhou, sem pressa, o amadurecimento de uma fruta no quintal, o voo de um pássaro, o desenho das nuvens ou a chegada silenciosa da noite? Vivemos uma época em que sabemos tudo o que acontece no mundo, mas quase nada do que acontece dentro de nós.


Temos aplicativos para contar nossos passos, mas não percebemos os passos de quem caminha ao nosso lado. Recebemos centenas de mensagens por dia, mas adiamos uma conversa importante. Fotografamos o pôr do sol e, muitas vezes, nem chegamos a olhá-lo. Cecília lamentava a ausência daqueles dias longos, em que havia tempo para contemplar o crescimento dos frutos, esperar as constelações e até acompanhar, no rosto de quem amamos, o surgimento das rugas que contam uma história de vida.


Hoje, talvez nem percebamos quando alguém envelhece. Nem quando uma amizade pede cuidado. Nem quando nossos pais começam a repetir as mesmas histórias. Nem quando nossos filhos deixam de ser crianças. A pressa nos roubou detalhes que eram, justamente, a própria vida.


O curioso é que nunca tivemos tantos recursos para economizar tempo. Máquinas lavam roupas, aplicativos fazem compras, mensagens chegam em segundos, reuniões acontecem sem deslocamento. Economizamos minutos em quase tudo. Mas onde foi parar o tempo que economizamos? Talvez ele tenha sido devolvido à própria pressa. Vivemos ocupados. Sempre ocupados. Como se existir fosse uma corrida cujo prêmio ninguém conhece.


No final do poema, Cecília pergunta quem corre atrás de nós com o passo de um exército ou de um temporal. É uma pergunta que continua ecoando. Quem nos persegue? O relógio? As metas? O medo de ficar para trás? Ou somos nós mesmos que desaprendemos a permanecer?


Contemplar nunca foi perder tempo. Contemplar é devolver sentido ao tempo. É sentar diante do mar sem a obrigação de fotografá-lo. É ouvir uma música até o fim sem interrompê-la. É ler um poema duas vezes porque a primeira leitura não bastou. É permitir que o silêncio também participe da conversa.


Talvez não possamos recuperar aqueles dias extensos de que falava Cecília. O calendário continua o mesmo, as horas seguem implacáveis. Mas ainda podemos recuperar a nossa capacidade de habitar o tempo. Porque a vida nunca deixou de florescer devagar. Quem passou a caminhar depressa fomos nós.


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Mira Pimentel é cronista.

1 comentário


fatima.daniel
há um dia

Que crônica sensacional! Felizes os que param para ler e refletir. Parabéns Mira Pimentel. Suas crônicas deveriam estar num livro. Pense nisso!


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