'Pra frente Brasil'
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'Pra frente Brasil'

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Por Paulinho Freitas


Arte: Jornal Daki com IA
Arte: Jornal Daki com IA

Andando à toa pela vida, ouvi meu amor me chamar para ver a copa do mundo. Enquanto isso, ali na antiga Vila, ponto de encontros na década de setenta, onde tudo acontecia, moradores de rua e pessoas expostas a vulnerabilidade social, esperam pacientemente desde as primeiras horas do dia, o café da manhã que é distribuído por entidades religiosas de diferentes credos. 


Enquanto isso, nos mercados, as filas estão enormes. Todo mundo garantindo a carne para o churrasco e a cerveja para comemorar a vitória ou chorar o amargo da derrota. Lá em Brasília, aproveitando que o povo está distraído, talvez até mais desatento que nos dias de Momo, onde tudo aumenta e só se sente uma semana depois da quarta-feira de cinzas, deputados e senadores votam medidas eleitoreiras para garantirem o emprego, mais uma vez, a partir de outubro.


Na assembleia Legislativa, como num desenho animado cujo os personagens passam o tempo pensando numa maneira de conquistar o mundo, os deputados se desdobram em artifícios para se apropriarem do Palácio Guanabara.


 Na Câmara dos Vereadores de nossa cidade nada muda. Eles tomam café e gargalham do discurso da oposição, que denuncia o descaso com a educação, o desvio de recursos, o sucateamento e destruição dos históricos equipamentos de cultura da cidade, como prédios e fazendas.


Nas ruas, enfeitadas com fitas, bandeirinhas e pinturas nos muros e chão, um corre-corre danado, o dia vai acabar na metade e depois do almoço nada tira esse povo da frente da televisão. 


O jogo começa. As ruas estão desertas, mas os bares estão lotados, nas capelas os velórios ganham ares de copa do mundo e na hora dos gols, por alguns segundos, até tristeza se rende e bebe as lágrimas como se fossem uma gelada e gostosa cerveja e a cada lance de perigo aquele frio na barriga aumenta. 


Muita tensão. O jogo empatado, o Japão se defende bem. Parece querer levar o jogo para a prorrogação e lá, matar o Brasil no cansaço. Só não contavam que este país já passou por tantas dificuldades maiores, que uma prorrogação nada mais é que uma saideira não muito gelada, mas que se bebe com o mesmo prazer. Só que o destino não estava a fim de esperar tanto tempo e nos últimos segundos de jogo entrou em campo e resolveu: Brasil 2x1. 


Fim de jogo. O Guanabara reabre com promoções relâmpago, a Vila, que estava parecendo um filme de faroeste, com feno e poeira ocupando a vida começa a receber seus habitués frequentadores já aguardando o jantar que, de novo, os religiosos vão trazer. Os bares vão esvaziando, alguma discussão mais exaltada acaba em empurrões, mas logo apaziguada pela turma do deixa disso. 


Brasília fica vazia de vez. Os parlamentares viajam para suas bases para uma pré-campanha e só retornam na próxima segunda.


 A Assembleia Legislativa não dorme, aliás, nem viu o jogo. Não sossegará enquanto não conseguir nem que seja um pedaço da grama do jardim do Palácio Guanabara para chamar de seu e, por fim, os vereadores de oposição discursam para um plenário vazio enquanto o pré-candidato ao governo do estado alinhava alianças ali pelos lados do bairro Estrela do Norte.  


“... E cada qual no seu canto. Em cada canto uma dor, tudo tomou seu lugar...”  Não importa! Vencemos! Domingo que vem tem mais! 


“Pra frente Brasil! Brasil! Salve a seleção! ”


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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.

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