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A política dos abraços

Por Mira Pimentel


Arte: Jornal Daki com IA
Arte: Jornal Daki com IA

Há quem diga que a vida é feita de grandes acontecimentos. Eu desconfio que ela seja feita, sobretudo, de pessoas.


São elas que dão contorno aos nossos dias. São as amizades que chegam sem pedir licença, os afetos que permanecem quando o mundo parece desabar, os encontros improváveis que nos lembram que ainda vale a pena acreditar na humanidade.


Nenhum patrimônio é mais valioso do que uma mão que nos alcança antes da queda.


Vivemos numa época em que acumulamos seguidores, mas perdemos companheiros de caminhada. Conversamos por telas luminosas, enquanto os olhos se acostumam à escuridão da indiferença. Tornou-se comum conhecer milhares de pessoas e, ainda assim, sentir a solidão fazer morada.


Talvez porque amizade nunca tenha sido quantidade.


É presença.


É tempo.


É cuidado.


É aquele abraço que chega antes das palavras e responde perguntas que nem tivemos coragem de fazer.


Penso, então, que a política poderia aprender muito com uma boa amizade.


Imagino como seriam nossas cidades se quem governasse compreendesse que administrar uma nação é, antes de tudo, cuidar de pessoas. Que um orçamento também pode ser um gesto de carinho. Que um hospital funcionando é um abraço silencioso. Que uma escola de qualidade é uma declaração de amor ao futuro. Que transporte digno, cultura, esporte e segurança são formas de dizer a um povo: "Você importa."


Talvez deixássemos de construir muros para construir pontes.


Talvez as sessões acaloradas dessem lugar ao respeito.


Talvez a divergência deixasse de ser guerra para voltar a ser diálogo.


Porque política não deveria ser a arte de vencer adversários.


Deveria ser a arte de não abandonar ninguém.


Imagino, às vezes, um país onde as decisões fossem tomadas com a mesma delicadeza de quem prepara uma mesa para receber amigos. Onde a pressa cedesse espaço à escuta. Onde a autoridade soubesse que o verdadeiro poder não mora na voz mais alta, mas na capacidade de aliviar o peso que o outro carrega.


Seríamos uma enorme colcha de abraços.


Cada cidadão seria um retalho diferente, costurado pela mesma linha invisível da esperança. E sobre essa colcha repousaria uma melodia tão serena que talvez os anjos resolvessem desafinar o céu apenas para aprender conosco como soa a fraternidade.


Pode parecer poesia.


E é.


Mas toda grande política começa exatamente onde nasce a poesia: na capacidade de imaginar um mundo que ainda não existe.


Enquanto alguns insistem em dividir o país entre vencedores e vencidos, continuo acreditando que ninguém vence sozinho. O destino de uma cidade nunca será melhor do que a qualidade dos laços que unem seu povo.


No fim, talvez Deus não nos pergunte quantas eleições vencemos, nem quantos discursos fizemos, nem quantos partidos defendemos.


Talvez queira apenas saber quantas pessoas conseguimos fazer sentir menos sozinhas.

Se essa for a verdadeira eleição da vida, confesso desde já o meu voto.


Continuo votando no afeto.


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Mira Pimentel é cronista.

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