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Feliz Ano Novo!

Por Hélida Gmeiner 





Escrevo esse texto em meio às comemorações e saudações pela passagem de mais um ano. 


Assim como tantos outros e outras antes de mim, me vejo refletindo sobre o sentido simbólico de cortar o tempo em etapas e alimentar a sensação de terminar ciclos e ver nascer o novo,  a sensação animadora do começo. 


Escolher uma roupa nova, estudar as cores e seus sentidos. Comida de sorte e champanhe, claro. Uma inquietação iminente anunciada por estrondos esporádicos (ainda bem) e pelo semblante diferente das pessoas.


Vou usar tudo novo amanhã… vou desejar, de coração, que esse "novo tempo" possa ser melhor que o tempo vivido. Estou em balanço e grata por tudo que vivi no ano que acaba. Imagino que assim seja, para a grande maioria de nós, humanos ocidentais, com nossos mitos, cronologia e ritos.


Sim, eu sei que é tudo cultural. Que contar e cortar o tempo é sobre nossa imaginação ficcionista, que inventa e reinventa a vida. Mas é legal demais. 


E hoje fui provocada duas vezes pelos ensinamentos de um mestre que parece entender as ruas como poucos, que sacode o posto, abalando estruturas e nos joga na cara o que, insistentemente, o sistema pretende esconder. Falo de Luiz Antônio Simas.



Então quero partilhar um pouquinho da minha aprendizagem  sobre seus ensinamentos. E vou me ater a dois pontos que me parecem fundamentais no contexto do Ano Novo.


Réveillon, como chamamos a data,  significa "acordar" ou "reanimar" em francês réveiller, tendo um sentido figurado. Assim, o réveillon é o despertar de um novo ano. Esse costume remete ao início do século XX, com a valorização da cultura francesa e a grave política de embranquecimento do povo brasileiro.


É importante falar sobre isso.  Houve uma política pública oficial que visava embranquecer o povo brasileiro. E Luiz Antônio Simas afirma claramente que o projeto político brasileiro não fracassou.  Ao contrário,  pela vontade da elite brasileira, o Brasil era mesmo para ser desigual e excludente. Portanto,  bem sucedido.  


E essa lógica não mudou até hoje verdadeiramente. Basta perceber a hipocrisia que invadiu as praias na noite de Ano Novo. Receber o novo ano na praia é costume das religiões de matriz africana, que lotava as praias com roupas brancas, giras e oferendas à Iemanjá. Quando era pequena, e nasci na segunda metade do século XX, a gente ia à praia "ver a macumba". 



Hoje tudo mudou,  a macumba não acontece na virada, porque cedeu espaço para o turismo. E seguimos fingindo que não percebemos a face excludente desse país, que, a despeito dos sonhos sombrios da elite, reinventa as políticas nefastas e faz nascer, nas frestas do cotidiano, uma potente resistência. Quem viver verá! 


Odoyá, rainha do mar! Que venha mais um ano, que seja um tempo de Luz e paz! Feliz 2024!


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Hélida Gmeiner Matta é professora da Educação Básica da rede pública. Pedagoga, Especialista em alfabetização dos alunos das classes populares, Mestre em Educação em Processos Formativos e Desigualdades Sociais e membra do Coletivo ELA – Educação Liberdade para Aprender.


POLÍTICA