Por acaso, tudo acontece rápido
- Jornal Daki

- 31 de out. de 2025
- 3 min de leitura
D.Freitas

Faz um ano desde que voltei pra minha cidade natal e ainda não me acostumei ainda com a velocidade com que as coisas acontecem. Não que Manaus fosse monótona (longe disso), mas o verde esmeralda com cinza granito tinha mais harmonia do que a explosão de cores dos carros contrastados com azul do mar e o céu laranja do fim de tarde. Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, muito rápido.
Oposto a essa velocidade é o trânsito, onde passo a maior parte do meu dia e onde tenho algum tempo pra pensar. Primeiramente, praguejo pelo tempo que perco a cada dia nesse pisar de embreagem, passar marcha, acelerar o carro, pisar na embreagem, colocar no ponto morto e frear repetidas vezes em ciclo. Em seguida agradeço pelo tempo que tenho para "perder" enquanto ajeito minha proteção/amuleto colocado no retrovisor do carro. Penso que eu deveria ter uma imagem do orixá que é representado por esse fio de contas enquanto o trânsito volta a fluir em mais um ciclo de anda-para.
O tempo para quando meu telefone toca com a voz do meu pai anunciando uma notícia extremamente triste. Por acaso eu pensei no tempo que eu tinha pra perder, e alguém querido perdeu todo o tempo que tinha também por acaso. Repentinamente. Pelo tempo que continuei no engarrafamento não pude cantar as canções que ecoavam sem valor no rádio. Não pude pensar no que escreveria essa noite para publicar no jornal. Não pude dar conselhos ou confortar meu pai com palavras. Em casa sobrariam os abraços e lágrimas. Talvez isso fosse tudo. Embora nada seja o suficiente para suprir uma perda.
Perdido em meus pensamentos, realizei o resto das tarefas do dia no piloto automático. Ignorei umas pessoas pela rua enquanto caminhava e em seguida me senti extremamente mal por isso quando me dei conta do que fiz sem intenção. Ainda estava desolado, despreparado, me sentindo inútil e pequeno. Precisava de um abraço e ao mesmo tempo deveria ser eu o braço que deveria acolher alguém dessa vez.
Por acaso enquanto pensava nisso uma barraquinha com inúmeras figuras de orixás em exposição pareceu surgir do meu lado. Rapidamente me lembrei do momento no trânsito. A artista e dona da loja, me explicou com orgulho o seu trabalho e por instantes fui puxado para fora da atmosfera pesada que me perseguia. Ela olhou no fundo dos meus olhos e perguntou : você precisa de algo para você ou para presentear alguém?
Não sabia se ela falava das artes ou de algo mais profundo e isso me gerou alguns segundos de pensamento para formular uma resposta simples e ao mesmo tempo vaga: preciso de algo que não sei o que é.
Ela buscou no meio das inúmeras figuras feitas com material reciclável um pequeno Oxóssi e estendeu em minha direção me perguntando se eu precisaria dele azul ou verde.
Talvez fosse o acaso que tivesse colocado ela no meu caminho. Talvez fosse só suposição o que fez ela acertar o que eu pensava enquanto dirigia no trânsito. Talvez meu rosto transparecesse o que eu precisava. Não sei bem porque tudo aconteceu muito rápido.
Faz vinte e nove anos que cheguei nessa vida. Ainda não me acostumei com a velocidade. Tenho certeza que ainda não tô pronto para alcançar a fase monótona.
Longe disso.
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Davi Freitas (D.Freitas) nasceu em São Gonçalo, cria da cultura gonçalense, desde sempre conviveu com músicos, poetas e escritores. autodidata, aprendeu violão e bateria sozinho e junto com o irmão Lucas Freitas fez algumas apresentações até ter, por motivos profissionais, que mudar de estado. Como escritor, participou, pela Editora Apologia Brasil da Antologia em Tempos Pandêmicos e inicia agora sua trajetória no mundo das crônicas e contos.













































































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