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Precisamos assumir agora uma postura antirracista - por Dimas Gadelha


Manifestantes em ato de Justiça por Durval Teófilo/Foto: Valdinei Marins
Manifestantes em ato de Justiça por Durval Teófilo/Foto: Valdinei Marins

Moïse, Durval e Yago. Três vidas que se entrelaçaram nos últimos dias numa mesma teia trágica e macabra de racismo, violência e justiçamento paraestatal no Rio de Janeiro. O que dizer mais do que já foi dito sobre isso? Pranteado em dor, revolta e desespero? Desta vez não surgiu ninguém com a clássica - e cínica - justificativa do “foi apenas um fato isolado”.


Pelo contrário. São fatos que se atropelam, de ocorrência diária. Independente se no bairro chique da Barra da Tijuca, na nossa Colubandê ou na favela do Jacarezinho.


Os alvos são sempre os mesmos corpos negros. Sobretudo corpos de homens jovens negros. No estado do Rio, pelo menos seis destes corpos são encontrados diariamente cravados de balas no chão ou estraçalhados a pauladas, numa sinistra sinalização do encontro do racismo com o ódio irracional, este que já envenenou o ambiente político e social brasileiros.


É urgente adotarmos como um dos nossos traços evidentes enquanto povo o antirracismo. O antirracismo deve ser adotado como postura em nossas famílias, no elevador, no escritório, nos jogos do Maracanã ou nas festas de debutantes.


Devemos fazer valer de verdade a Lei 10.639/2003 do ensino da História da África e da cultura negra nas escolas do ensino básico. Isso também é postura antirracista, mas indo além: também como pedagogia antirracista para ensinarmos nossas crianças a serem antirracistas e a replicar essa postura por gerações até não precisarmos ter tal postura porque desnecessária.



Precisamos também mexer na legislação para que ela seja antirracista. Um dos sustentáculos do racismo estrutural brasileiro é o sistema de Justiça. E não sou eu que falo isso, mas juristas renomados, entre eles, o professor Silvio Almeida, autor do livro Racismo Estrutural (2019), obra fundamental que disseca essa chaga que herdamos após 380 anos de escravidão.


E precisamos, agora, antes de qualquer coisa, orientar o Estado a ser antirracista. No bojo da modernização de uma legislação antirracista, devemos fazer custar caro à sociedade e ao estado o assassinato brutal do Moïse e do Durval, assim como a prisão ilegal do Yago. As indenizações devem ser altas e imediatas, assim que comprovadas suas responsabilidades por ação ou omissão.


Não podemos mais permitir mortes estúpidas como as de Kauan Peixoto, Christian, Rômulo, Victor, Sandra Gomes, João Pedro, estes que não foram esquecidos pelo escritor gonçalense Mário Lima Jr. em seu livro O Brasil não dorme tranquilo: crônicas de tempos difíceis (2020), e tantos outros, como a menina Ágatha, Kathlen Romeu ou, mais recentemente, o lutador Vitor Reis, no morro da Jaqueira, no Patronato.


Nós podemos acabar com essas iniquidades. E a partir de agora!


***


Ontem (12/02) houve um ato em Memória e por Justiça ao Durval Teófilo na Praça Zé Garoto. Toda a minha solidariedade à Luziane, filha e toda a família. A sua dor é dor de todos nós.

 

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Dimas Gadelha é médico sanitarista, secretário de Gestão e Metas de Maricá e ex-secretário de Saúde de São Gonçalo.




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