Quem Tirou Amora do Lugar?
- Jornal Daki
- há 4 horas
- 3 min de leitura
Por Mira Pimentel

Caminhava pela orla numa dessas manhãs em que o vento parece conversar com a gente.
O mar estava calmo, mas não silencioso. Havia um tipo de movimento ali — constante, profundo — que não pede licença para existir.
Foi nesse vai e vem das ondas que Amora me veio.
Não como lembrança solta.
Mas como história.
Dizem que Amora saiu. Mas quem diz isso talvez não tenha entendido direito.
Amora não saiu. Amora foi deslocada.
E essa diferença — que parece pequena — muda tudo.
Porque sair é escolha. E o que fizeram com Amora… foi decisão de outros.
Amora vem de uma linhagem de educadores.
Gente que acredita que ensinar não é despejar conteúdo — é abrir caminhos dentro do outro.
Talvez por isso ela nunca tenha sabido trabalhar com frieza.
Amora sempre foi de vínculo.
Mas há coisas que não se aprendem nos livros.
Amora aprendeu na pele.
Dentro de casa.
Quando a vida lhe apresentou, através do próprio filho, a face crua daquilo que o mundo ainda insiste em rejeitar: o direito de ser.
E ela não hesitou.
Não corrigiu. Não negou. Não silenciou.
Abraçou.
E ao abraçar o filho, abraçou também todos aqueles que vivem existências atravessadas por olhares tortos, por sistemas rígidos, por normas que não comportam o humano.
Foi assim que nasceu o tal “núcleo”.
Chamaram de núcleo.
Mas, na prática, era outra coisa.
Era um espaço de escuta. De café compartilhado entre dores. De mãos que se encostam sem medo. De nomes que finalmente puderam existir sem sussurro.
Um núcleo… contra as pragas invisíveis: a discriminação, a homofobia, o apagamento.
E Amora não era funcionária desse lugar.
Era raiz.
Veio uma nova gestão.
E com ela, aquela dança já conhecida: trocam-se cadeiras, ajustam-se nomes, reorganizam-se “funções”.
Tudo muito correto no papel. Muito limpo. Muito explicável.
E foi assim, com a elegância fria da burocracia, que disseram a Amora:
— Volte.
Como se voltar fosse simples. Como se fosse possível sair de um lugar que nunca foi apenas um lugar.
Amora voltou.
Mas e o que ficou?
Ficaram as conversas interrompidas. Os vínculos suspensos no ar. As histórias que ainda precisavam de colo.
Ficou um silêncio estranho — desses que não fazem barulho, mas fazem falta.
E a pergunta começou a caminhar sozinha pelos corredores:
Quem tirou Amora do lugar?
Foi a gestão? Foi a estrutura? Foi o costume de não reconhecer o que não cabe em planilha?
Ou foi algo ainda mais antigo — essa dificuldade que o mundo tem de sustentar o que é vivo?
Porque Amora nunca foi “staff”.
Amora era presença.
Era daquelas que explicam sem impor, que acolhem sem invadir, que traduzem o mundo para quem sempre teve que se esconder dele.
Era ponte.
E pontes não deveriam ser removidas — deveriam ser cuidadas.
Mas o curioso é que, mesmo fora, Amora não desaparece.
Porque há pessoas que não cabem em setores.
Cabem em memórias. Cabem no riso depois do choro. Cabem na coragem de quem decidiu existir.
Cabem naquele primeiro “eu posso ser quem sou”.
Amora voltou para outro lugar.
Mas o lugar que ela criou… continua chamando por ela.
E talvez seja isso que mais incomoda:
há existências que não se apagam.
Elas acendem.
E toda vez que o nome de Amora é lembrado, alguma coisa reacende junto.
Como um samba que insiste em continuar, mesmo depois que a música oficialmente termina.
Porque no fim… a vida pode até ser jogo, como diria o poeta.
Mas com Amora — ela sempre foi mais que regra.
Foi encontro. Foi afeto. Foi revolução com ternura.
E isso… nenhuma gestão consegue realocar.
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Mira Pimentel é cronista.












































