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Alex, Luana e eu - por Alberto Rodrigues


Com a ala/carro/Foto: Acervo
Com a ala/carro/Foto: Acervo

O período do carnaval duplo de 2022 acabou, mas o samba é eterno. Por isso, continuaremos evoluindo com muita harmonia.


Percorri, por dois dias, a Marquês da Sapucaí e vi um mar branco, com mencionei em outra coluna. Só que um fato me chamou atenção e parei na avenida (logo fui chacoalhado pela harmonia e voltei a evoluir, risos).


Me deparei com uma família inteira branca, em um dos principais camarotes do Sambódromo, bem perto da avenida, onde tinham algumas crianças observando e festejando toda aquela apoteose produzida pela comunidade, pela periferia, pela favela, por nós povo preto.


Eu demorei 30 anos para poder viver aquela experiência, vou além, famílias que trabalham o ano inteiro, a vida inteira, desenvolvendo e produzindo na base o carnaval, nunca tiveram esse privilégio desse olhar, desse destaque a não ser na ala da comunidade onde as fantasias são doadas e os ensaios exaustivos, embora felizes.


Em um ano, onde fica latente a discussão sobre apropriação cultural no território do samba, onde questionamentos percorrem rodas de conversas e o ambiente digital ferve com essa pauta; é possível ver nossas raízes resistentes para garantir nossa continuidade no mundo do samba. Há uma geração consciente e, que de fato, vai retomar nosso direito sobre o legado do samba. O samba é nossa herança e não abrimos mão dela!


E é nesse compasso que quero trazer a história de uma família preta, pai e filha, que conheci na avenida. Eles buscam retomar esse lugar de protagonismo no samba. Um amor de pai e filha, samba e paternidade.

Luana Guedes tem 17 anos, é estudante, modelo, passista do Salgueiro e reside em Mesquita, Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Desde criança acompanha seu pai nos sambas. Segundo ela, foi assim que tudo começou. Seu pai Alex Guedes, ex-jogador de futebol profissional, hoje técnico de futebol, é o responsável por aquecer essa paixão na Luana pelo o samba e tudo quanto ele representa para nossa comunidade preta brasileira.


Luana/Foto: Acevo

História da resistência negra no Brasil foi o enredo trazido pelo o Salgueiro que ficou em 6º sexto lugar (indevidamente, na minha opinião).

Esse ano, a Luana conseguiu realizar um sonho, sair na ala de passistas do Salgueiro, ala esta que ganhou um estandarte de ouro.

"Desfilei no Salgueiro como passista, a realização de um sonho. Agradeço muito à escola, ao meu mestre Carlinhos e à minha Madrinha Larissa Reis pela oportunidade. Foi muito importante para mim representar todas as meninas e mulheres negras", descreveu Luana.

"Estou muito feliz por esse prêmio! Gratidão é a palavra que define este momento. Fazer parte dessa ala com os meus amigos e meu mestre Carlinhos é muito gratificante. É importante, para mim, fazer parte dessa família. Foi muito esforço, muita dedicação, muita entrega e foi muito difícil, mas valeu à pena cada ensaio e cada esforço", relatou Luana Guedes.


O pai, Alex Guedes, entende a importância que é ter uma oportunidade. O mesmo já esteve à mercê de uma oportunidade, por isso faz questão de acompanhar e auxiliar em tudo a sua filha.


"Não é só um sonho da minha filha, é um sonho de várias meninas que não têm oportunidade, muito menos condições financeiras. Não é muito diferente para os jovens que sonham ingressar no futebol. No entanto, o samba vai além da avenida, é um estilo de vida, uma herança ancestral, cultural e de resistência, no qual nossa juventude precisa ter acesso e consciência," ressalta o pai de Luana.


Alex e Luana/Acervo
Alex e Luana/Acervo

Que possamos retomar a avenida do samba, não só realizando o espetáculo, mas ocupando os lugares de privilégio que, até então, nos são privados.


Que a comunidade preta, que realiza o maior espetáculo a céu aberto do mundo, tenha o mesmo acesso financeiro, no qual aqueles que um dia criminalizaram o samba, hoje o detêm.


O samba é preto e de gente preta. Esse legado é intransferível e não pode ser negociado.

Que todas famílias tenham o mesmo acesso aos direitos já constituídos.

Instagram:@eu_luanaguedes

Colaboração: Elisabete Nascimento

 

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Alberto Rodrigues é produtor cultural.



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