Apostas online já superam crédito e juros como fator associado à inadimplência
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Apostas online já superam crédito e juros como fator associado à inadimplência

País encerrou o mês de fevereiro com 81,7 milhões de CPFs negativados

Foto: Reprodução
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O Brasil encerrou o mês de fevereiro com um dado histórico e alarmante, 81,7 milhões de CPFs negativados, segundo informação divulgada pela Serasa Experian. Em meio ao cenário de inadimplência recorde, um novo fator desponta como protagonista nas pressões financeiras das famílias, as apostas online, conhecidas como bets.

Estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo, Ibevar, em parceria com a FIA Business School, aponta que houve uma mudança estrutural no perfil do endividamento entre dezembro de 2011 e dezembro de 2025. Pela primeira vez, as apostas superaram o crédito e os juros como item de maior impacto associado à inadimplência das famílias brasileiras.


A pesquisa utilizou dados do Banco Central, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea, além de métricas de interesse captadas em redes sociais. Após a aplicação de modelos econométricos, o coeficiente associado às apostas foi de 0,2255, superando com ampla margem o peso do crédito sobre a renda, de 0,0440, e dos juros ao consumidor, de 0,0709.


O avanço das apostas também já apresenta reflexos concretos no orçamento doméstico. A segunda edição da pesquisa comportamental do Procon-SP, realizada com 2.724 consumidores entre 4 de dezembro de 2025 e 9 de janeiro de 2026, revela que 39,7% dos apostadores se endividaram após iniciar o uso de plataformas de jogos e apostas online.

Além disso, 30,1% afirmam gastar, em média, mais de R$ 1.000 por mês com apostas.

O perfil dos entrevistados indica maior vulnerabilidade entre jovens e pessoas de baixa renda. Entre os apostadores, 82,5% têm até 44 anos e 38,6% possuem renda de até dois salários mínimos. No grupo que já se endividou por causa das apostas, 44,7% têm até 30 anos e 46,8% recebem até dois salários mínimos. As mulheres representam 53,9% desse grupo.


O levantamento também mostra forte influência da publicidade: 56,6% dos apostadores afirmam se sentir impactados por campanhas com celebridades. Outros 52,4% relatam ter comprometido parte relevante da renda, utilizando inclusive valores guardados ou empréstimos para continuar apostando, enquanto 62,2% dizem já ter enfrentado problemas com plataformas, principalmente relacionados ao pagamento de prêmios.

Para Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira, ABEFIN, os números revelam que o problema ultrapassa a esfera individual. “Quando as apostas passam a superar crédito e juros como fator associado à inadimplência, estamos diante de uma mudança estrutural no comportamento financeiro do brasileiro. Não é apenas falta de renda, mas um padrão de decisão impulsionado por mecanismos emocionais e estímulos constantes”, afirma.


Segundo ele, o endividamento é consequência de um processo mais profundo. “O vício não começa pelo dinheiro, começa pela emoção. As plataformas são estruturadas para ativar o sistema de recompensa do cérebro, alternando pequenas vitórias com perdas e criando a sensação de que é possível recuperar o prejuízo. Isso prolonga o ciclo e amplia as perdas.”

Dados do UNICEF reforçam a preocupação ao apontar que 22% dos adolescentes entrevistados afirmaram ter apostado pela primeira vez até os 11 anos de idade, evidenciando exposição precoce a ambientes de alto risco financeiro.

Domingos ressalta que apostas não podem ser confundidas com estratégia financeira. “Aposta não é investimento, não é renda extra e não é planejamento. É uma atividade de alto risco, com expectativa estatística de perda. Quando se vende a ideia de enriquecimento rápido, cria-se uma ilusão perigosa, especialmente para jovens sob pressão econômica.”


Apesar do avanço regulatório em 2025, especialistas avaliam que medidas normativas isoladas não são suficientes para conter o avanço do problema. Para o presidente da ABEFIN, a resposta estrutural passa pela educação do comportamento financeiro desde o ensino fundamental. “Educação financeira precisa ir além dos cálculos. É necessário trabalhar autoconhecimento, controle de impulsos e planejamento de longo prazo. Sem isso, o imediatismo tende a prevalecer.”


Com inadimplência recorde, vulnerabilidade juvenil e forte influência publicitária, o crescimento das apostas online consolida-se como um desafio econômico e social de grande escala. Para especialistas, enfrentar o problema exige informação, prevenção e formação consistente de consciência financeira nas famílias e nas escolas.

*Com informações OSG

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