Contra o vento
- Jornal Daki

- 20 de mai.
- 3 min de leitura
SÃO GONÇALO DE AFETOS
Por Paulinho Freitas

Dizem que nascemos com nosso destino traçado e nada pode mudar isso. Algumas pessoas confirmam esta máxima com sua história de vida. Um nasce sem a menor possiblidade de viver, ou sobreviver. Sem a menor chance de caminhar com as próprias pernas e pegar o alimento com as próprias mãos. Aos olhos do mundo este ser será um pobre coitado, dependente de seus familiares para o resto da vida. Aí, vem o destino e diz: NÃO! Este ser se transforma num grande campeão paraolímpico, conhecido no mundo todo, orgulho do país.
Outro de família abastada, com facilidade em todos os sentidos, residente na zona sul, frequentador dos melhores colégios, sem nada para reclamar da vida e com um futuro brilhante. Novamente vem o destino e diz: NÃO! O cara foi preso numa favela no subúrbio, portando fuzil, rádio de comunicação e uma mochila cheia de drogas. A família contrata os melhores advogados, conseguem reverter o quadro e o internam numa clínica de reabilitação de onde sai dois anos depois, para a alegria da família, se dizendo curado, pronto para se reintegrar a sociedade e vislumbrar um novo futuro. Duas semanas depois é morto numa troca de tiros com uma quadrilha rival. Não dá para remar contra a maré. Só acontece o que tem de acontecer e não adianta dizer que cada um pode mudar seu próprio destino na hora em que bem entender. Só se estiver escrito. E, como no jogo do bicho é o que vale.
Divago sobre estas questões por causa de JL. O conheci ainda moleque. Ele sismava em ser o coisa ruim da turma, mas nunca conseguia. Na escola, tocava o maior terror nas aulas, mas nas provas sempre tinha boas notas. É que por mais que não quisesse, bastava uma olhadela nas matérias, mesmo aquelas complicadas, já sacava tudo. Até nas provas de múltipla escolha, ele nem lia as questões, fazia aquela brincadeira de escolha aleatória e mesmo sem querer cravava a resposta certa.
JL era botafoguense doente, mas era linha de frente da torcida do Flamengo. Após os jogos era o primeiro a entrar em confronto com a torcida rival. Apesar de muito forte era ruim de briga, sempre saia no prejuízo e sempre socorrido como vítima, nunca como algoz.
Na época do exército fez de um tudo para não servir, mas não teve jeito, foi designado para o Terceiro Batalhão de Infantaria. Resolveu então virar o bandido de farda. Só que caiu nas graças de um coronel. JL tocava muito bem violão e tinha uma bela voz. Resultado: não tirava serviço, passava a maior parte do tempo com o pessoal da banda e sempre que havia uma festividade na casa de algum superior lá estava ele fazendo seu show.
Depois que deu baixa JL decidiu enveredar de vez para o lado da bandidagem. Numa tarde viu um homem entregar um pacote de dinheiro nas mãos de outro homem na porta do banco. O homem saiu apressado, quase correndo. JL foi atrás dele, deu um calço em seu calcanhar o jogando no chão e caiu em cima para roubar o dinheiro. Neste momento uma PATAMO que ia passando parou e agarrou os dois.
O homem que havia entregue o dinheiro ao outro chegou correndo e abraçou JL. Na verdade tinha sido roubado por aquele sujeito e JL, sem querer pegou o ladrão. Em vez de bandido, virou herói. O homem ficou tão agradecido que o levou para jantar em sua casa. Após o jantar conversaram bastante e o homem ficou impressionado com a inteligência e conhecimento que JL tinha sobre qualquer assunto. Convidou JL para trabalhar com ele, que era dono de cartório, daí para cair nas graças da filha do patrão foi um pulo. Fez faculdade de direito e junto com a esposa herdou o cartório.
JL adora filmes e séries de ação. Sempre torce pro bandido, mesmo sabendo que o destino deste é morrer no final do filme.
Contra o vento, só Caetano Veloso.
Nos siga no BlueSky AQUI.
Entre no nosso grupo de WhatsApp AQUI.
Entre no nosso grupo do Telegram AQUI.
Ajude a fortalecer nosso jornalismo independente contribuindo com a campanha 'Sou Daki e Apoio' de financiamento coletivo do Jornal Daki. Clique AQUI e contribua.

Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.








































































Comentários