O Evangelho Segundo os Mercadores
top of page

O Evangelho Segundo os Mercadores

Por Mira Pimentel


Arte: Jornal Daki com IA
Arte: Jornal Daki com IA

Houve um tempo em que eu sabia reconhecer um evangélico pela delicadeza. Não pela roupa. Não pelo grito. Não pela performance pública da fé.


Era pelo jeito de tratar as pessoas.


Quarenta anos atrás, um “crente” era alguém que carregava uma espécie de santificação silenciosa. Sem generalizar — porque golpistas existem em qualquer instituição, até dentro das famílias — havia entre muitos deles uma sinceridade difícil de encontrar hoje.


A intenção parecia simples: anunciar as boas novas, falar do amor de Jesus, viver o evangelho na prática.


Eu era criança quando frequentava uma pequena igreja evangélica perto da casa onde morávamos. E amava aquela liturgia. O respeito. A devoção. A verdade que uma criança consegue perceber sem precisar de explicação teológica.


Lembro do hino até hoje:


“Foi na cruz, foi na cruzOnde um dia eu viMeus pecados castigados em Jesus…”


Era bonito. Porque havia amor ali.


O protestantismo nasceu justamente de uma ruptura. Martinho Lutero questionava a centralização religiosa e entendia que o ser humano não precisava de intermediários para acessar Deus. As Escrituras deveriam estar nas mãos do povo — e não apenas sob o domínio de líderes religiosos e políticos.


Mas os séculos passaram… e parte da fé voltou a virar comércio, influência e manipulação emocional.


Hoje, muitas igrejas parecem bancos integrados da alma humana.O púlpito virou palco.A fé virou produto.E Jesus continua entrando no templo todos os dias — derrubando mesas invisíveis e perguntando onde foi parar a verdade.


A cena bíblica permanece atual:


“Minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a transformastes em covil de ladrões.”— Bíblia Sagrada


Existe algo profundamente perigoso quando líderes religiosos se apropriam do nome de Deus para projetos de poder. Quando a Bíblia vira ferramenta política. Quando homens imperfeitos passam a vestir uma santidade cenográfica enquanto estimulam medo, idolatria e obediência cega.


E talvez o mais assustador não sejam os líderes.Mas a multidão disposta a terceirizar consciência, ética e compaixão em nome de narrativas prontas.


A própria Bíblia alerta:


“Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.”— Bíblia Sagrada


No fim das contas, sigo acreditando numa frase simples que a vida vem me ensinando:

“Se malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto por malandragem.”


E então me pergunto:em tempos de encenação moral, manipulação religiosa e verdades fabricadas…


quem ainda terá coragem de viver a verdade sem precisar transformá-la em espetáculo?


Nos siga no BlueSky AQUI.

Entre no nosso grupo de WhatsApp AQUI.

Entre no nosso grupo do Telegram AQUI.

 

Ajude a fortalecer nosso jornalismo independente contribuindo com a campanha 'Sou Daki e Apoio' de financiamento coletivo do Jornal Daki. Clique AQUI e contribua.



Mira Pimentel — Cronista

 

POLÍTICA

KOTIDIANO

CULTURA

TENDÊNCIAS
& DEBATES

telegram cor.png
bottom of page