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Novos tempos

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Por Paulinho Freitas


Arte Jornal Daki com IA
Arte Jornal Daki com IA

Um primo meu, policial militar reformado, chegou em casa depois do trabalho e deixou o carro passar a noite na calçada. Pela manhã, ao sair, deu por falta do rádio no carro. Sem perder a serenidade, pegou pela gola da camisa, aquele considerado pelos vizinhos usurpador do bem do alheio, dizendo que quando saísse no dia seguinte queria o rádio no lugar. O rapaz jurou inocência. Pois bem, na manhã seguinte ao entrar no carro se deparou com um rádio no lugar e três no banco do carona. Questão de respeito. Isso foi há muitos anos atrás.


Quando me filiei a ala de compositores do GRESU Porto da Pedra, saía da quadra pela madrugada e vinha a pé para casa. Numa dessas madrugadas minha saída da quadra coincidiu com o término do baile funk no Clube Tamoio. A rua Abílio José de Matos estava tomada por jovens vindos do baile. Eles agrediam quem encontravam pela frente, quebravam orelhões e chutavam portões e portas de loja.


Eu não tinha para onde correr e já esperava ser sovado por eles. Para minha surpresa, quando chegaram perto de mim fizeram como o mar vermelho ao toque do cajado de Moisés: abriram um corredor para que eu passasse. Algum tempo depois foi que atinei o porquê não me encostaram a mão. A camisa da escola era respeitada. O Tigre rugia alto.


Na mesma ocasião, numa festa de confraternização entre as coirmãs, o carro de um componente de uma das escolas visitantes foi roubado. O locutor anunciou no microfone que o presidente de honra de nossa escola ia ficar muito feliz se o carro aparecesse até o final do evento. Misteriosamente, antes do amanhecer, o carro estava no mesmo lugar que estava e sem um grão de poeira. Ninguém gostava de ver o presidente de honra “triste”.


O tempo passou e o mundo mudou. Fui fazer minha fezinha no jogo do bicho dia desses, coisa de velho. Eram cinco horas da tarde e a banca já estava fechada. No dia seguinte interpelei o corretor zoológico que me respondeu que fecha cedo por medo de assalto. Onde chegamos! O contraventor com medo da contravenção.


Da mesma forma, as escolas de samba terminam suas atividades bem mais cedo para preservar seus componentes da violência que assola o país, em especial o Rio de Janeiro.


O policial que outrora era só orgulho em andar fardado, hoje sai e volta para casa à paisana para não ser reconhecido. É pedreira irmão!


São novos tempos, novos medos. Os velhos “Capones” brasileiros que já não estão neste plano, assim como os milicos que já partiram dessa para melhor devem estar se revirando no túmulo.


É o final dos tempos!


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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.

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