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Bombardeio e Aracati - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Arte Jornal Daki/Foto: reprodução Internet
Arte Jornal Daki/Foto: reprodução Internet

Mazinho Bombardeio e Juarez Aracati são amigos desde sempre. Na infância, sempre juntos, eram o terror da vizinhança. No Morro da Madama tocavam o maior terror. Das outras crianças tomavam as pipas, as bolas, os doces e gargalhavam de todas as maldades. Na roda de capoeira eram os mais perversos e só entravam para machucar o oponente.


Mazinho Bombardeio e Juarez Aracati, foram adolescentes numa época em que para se andar na rua depois das dez horas da noite, precisava ser maior de idade ou estar acompanhado por um responsável. Os dois saíam na madrugada escondidos dos pais e frequentavam blocos e escolas de samba de São Gonçalo e Niterói, subiam sorrateiros as escadas do Clube Costeira para dançar uma autêntica gafieira, pulavam o muro do Clube Cinco de Julho para curtirem uma noite com a Orquestra Tabajara e eram assíduos frequentadores de uma certa casa ali pela General Castrioto, onde as “sobrinhas” da dona da casa adoravam flertar com os “novinhos”.



Brigões, bons de briga e destemidos não corriam. Por nada, podiam vir quantos viessem que eles encaravam, as vezes levavam a pior, mas nunca os vi correr.


Os caminhos da vida dos dois foram se tornando distantes e eles foram se afastando a medida em que o tempo ia passando. O trabalho, a família, as responsabilidades assumidas com os respectivos casamentos não deixavam sobrar tempo para mais nada, restavam só os encontros de final do ano com a turma do futebol para matar as saudades contando as histórias de antigamente.


Do bar de Bacucy, na praça do Gradim, até o botequim de Aparício, na Madama, os dois colecionavam muitas histórias e gargalhavam muito delas enquanto a rapaziada, a maioria vítimas de suas maldades, ficavam rindo meio sem graça, mas deixavam passar. Todos os anos era a mesma coisa.


Semana passada Mazinho Bombardeio foi cortar o cabelo no salão do Cauby ali na praça do Gradim e encontrou o inesquecível amigo Juarez Aracati. Depois de um forte abraço resolveram beber umas e outras para relembrar os velhos tempos. Começaram no Bar Amarelinho do Gradim e foram pulando de bar em bar. Passaram pela padaria do Celso, subiram a rua Nova Aurora para beber umas lá no bar da Conceição e começaram a descer a rua para fazer o caminho inverso. A última parada foi no trailer do Puruca, ali na Restinga. Quando os olhos já quase não podiam ver travou-se o Seguinte diálogo:



Mazinho Bombardeio:


_ Meu cumpadi, a gente já brigou com o bairro inteiro, já encaramos até o pessoal do Bloco da Chaleira, foi briga pra mais de metro e não corremos de nenhuma, você sempre me escorou e eu sempre te escorei, minha rasteira seca era imbatível e sua cabeçada não deixava ninguém de pé. A gente nunca brigou entre a gente. Acho que tá na hora de ver quem é melhor:


O dono do bar, o Puruca se meteu onde não era chamado:


_ Meus amigos, acho que vocês já chegaram ao limite. É melhor cada um ir pra sua casa e parar com essa história de briga. Além de que vocês já passaram da idade disso né não?


Juarez Aracati:


_Meu cumpadi Bombardeio, acho que cumpadi Puruca tá achando que a gente é bagunça, que a gente já morreu. Qual vai ser?


Mazinho Bombardeio:


_Cumpadi Aracati, primeiro vamo quebrar ele e o bar dele, depois vamo sair na porrada e resolver nossa pendenga.


Meus caro(a) leitor(a), você não está entendendo o que está acontecendo. O negócio foi tão feio que eles começaram quebrando o bar do pobre do Puruca, entraram pela Travessa Rocha e foram se estapeando pela Rua Visconde de Itaúna até atravessarem a Francisco Portela onde uma viatura da Polícia Militar, depois de muito trabalho separou os dois. O olho direito de de Mazinho Bombardeio estava tão inchado que ele não conseguia abrir, o nariz junto com o lábio superior pareciam um só ser, pelo corpo todo hematomas diversos. Juarez Aracati por sua vez não conseguia levantar o braço esquerdo, na boca, dois dentes da frente estavam ausentes e devem estar em algum lugar do trajeto da briga perdidos. O pior é que os dois gargalhavam e a polícia e os curiosos não estavam entendendo nada até que o policial falou:


_ Os dois estão presos por depredação de patrimônio particular, agressão mútua e danos a terceiros uma vez que o dono do bar também está todo machucado.


Puruca foi o primeiro a falar:


_ Eu não reclamei de nada, meu bar estava em obras e o telhado caiu por acidente quebrando tudo que estava em baixo e eu me machuquei no acidente, não tenho nada a reclamar.


Mazinho Bombardeio emendou:


_ Eu fui ajudar a limpar o bar e uma prateleira caiu em cima de mim, por isso estou machucado.


Como Juarez Aracati não reclamou de nada o policial perguntou:


_ E você? Vai dizer que se machucou porque tropeçou na calçada e caiu dentro do bar no momento em que o mesmo desabou?


Juarez Aracati franziu a testa para tentar enxergar o policial através dos inchados olhos e respondeu:


_ Que bar que desabou? Eu tava pegando cajá verde pra beber uma cachaça quando uma abelha me mordeu, por isso minha cara tá toda inchada, os dentes quebraram comendo quebra queixo e já que ninguém tá reclamando de nada, ninguém foi agredido, ninguém ficou no prejuízo o senhor dá licença que vai começar o pagode da Loura lá na rua do Táxi. E virando-se para Mazinho Bombardeio e Puruca exclamou: Bora!


Ao que os dois responderam em coro:


_Só se for agora!


E lá se foram abraçados e mancando, um ajudando o outro a caminhar.


Essa história me foi contada pelos dois protagonistas enquanto conversávamos na loja onde os dois estavam comprando material para reconstrução do bar do amigo Puruca.


Mais uma do inspirador Gradim!!!!!!

 

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Paulinho Freitas estará no Flisgo apresentando seu livro Coisas do Tigre e batendo um papo com os leitores. Compareça!