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De poeta e louco...

Por Paulinho Freitas


SÃO GONÇALO DE AFETOS


Arthur Bispo do Rosario, o "artista louco", e o seu manto da apresentação/Divulgação
Arthur Bispo do Rosario, o "artista louco", e o seu manto da apresentação/Divulgação

Os loucos são seres muito interessantes. Não ligam para dinheiro, não ligam para roupa, para carros, para casa, não ligam nem mesmo se a comida é de hoje ou não. Observo esses meus companheiros de jornada e vejo que eles não sofrem, a simplicidade em viver é tanta que os motivos que nos levam a sofrer não cabem em suas vidas.  


Vindo de ônibus de Niterói para São Gonçalo, vi um rapaz, um andarilho, ali perto da praça do Barro Vermelho, carregando  uma velha janela de ferro. Devia estar pesada, ele tinha o rosto reprimido denunciando que o sacrifício era grande em carregá-la.  

 

Cheguei em casa, tomei banho, vi  TV e fiz mais uma porção de coisas. Por acaso fui até o portão dar uma olhada na rua. Eu moro perto da rua principal, a rua em que moro é cortada pelo Rio Imboassú e está toda arborizada, à tarde tem um vento muito gostoso. Fiquei ali no portão sentindo aquela gostosa brisa e quando eu menos espero, quem eu vejo? O rapaz com a janela de ferro nos ombros.



Andou do Barro Vermelho até ali com aquele peso todo, chegou no para peito da ponte, ergueu a janela e a jogou lá embaixo, dentro do rio. Fez uma cara de alívio, enxugou o suor com as costas das mãos e saiu batendo uma das mãos na outra como se tivesse feito um excelente trabalho, o que para ele foi. 


Eles são assim, se apegam a coisas e afazeres, para nós sem importância, mas para eles é enorme e prazeroso sacrifício. 


Outro andarilho tem uma paixão ferrenha por um velho relógio de pulso que não funciona, mesmo assim, ele não para de conferir as horas. Outro ainda, não larga sua velha caneta tinteiro sem tinta e sem ponta. São felizes no mundo que criaram para viver. Deveriam ser levados mais a sério, naquele mundo deles não há lugar para os sentimentos ruins, para a ambição e vaidade que tanto nos adoece.


Zeca Pagodinho adora a companhia dos doidos, Ariano Suassuna se identificava com eles. Um com a sabedoria popular, o outro, sábio acadêmico e ser vivente no mundo da criação, onde o sofrimento finda, quando terminamos de ler a última linha, da ultima página de mais uma boa história por ele imaginada. Precisamos exercitar mais nossa loucura, valorizar mais aquela gravata de cartolina que você ganhou no dia dos pais, ou aquela flor de papel celofane com perfume de alfazema ganha no dia das mães. 


Do louco, cada um de nós temos um pouco, do poeta, a loucura se incumbirá de nos fazer um. 

 

“Enquanto você se esforça pra ser...”


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Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.

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