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Mais um acerto da diplomacia brasileira

Por Eduardo Vasco

Foto: Reprodução EFE
Foto: Reprodução EFE

A chamada “Cúpula da Paz” ocorrida na Suíça teve um desfecho óbvio. Não levou a lugar nenhum. Pudera, pois desde o início o fracasso das pretensas negociações já era iminente.


Convocada a pedido do presidente ucraniano, Vladimir Zelensky, a reunião de alto nível não teve a participação da Rússia. Como bem argumentou o governo brasileiro, uma reunião que quer discutir os passos para o fim de um conflito não pode ocorrer sem que todos os lados do conflito estejam representados e com os mesmos direitos de voz.


A Rússia não foi convidada. Também já havia adiantado que não participaria de um encontro na Suíça de qualquer maneira, uma vez que o país abandonou o seu tradicional status de neutralidade ao se unir à campanha de Estados Unidos e Europa contra os russos.


Sempre foi uma exigência do governo ucraniano que a Rússia não participasse das negociações de paz. Mas a alta diplomacia não pode funcionar sob os mesmos preceitos de uma campanha de propaganda de guerra. Por mais que se considere o inimigo um demônio, é primordial negociar com ele quando não se consegue vencê-lo no campo de batalha. E a Ucrânia, de fato, está perdendo para a Rússia no campo de batalha.


Nesse sentido, talvez interesse mais ao próprio governo ucraniano do que ao russo estabelecer uma negociação de paz. A Ucrânia não tem qualquer perspectiva de recuperação do terreno perdido – pelo contrário, pode perder ainda mais território para a Rússia.


As negativas de Zelensky são típicas de um menino mimado, que se acostumou com os suntuosos presentes recebidos quase diariamente pelos papais e titios do Ocidente. Mas nenhum desses presentes está fazendo o efeito desejado. A negociação é a única solução para a Ucrânia.


Como um governo que, desde o início, tem se projetado como um ator para a estabilização da paz mundial, o Brasil tem sido coerente com os princípios diplomáticos e pacíficos tanto de sua tradição na política externa como das ideias expressas pelo presidente Lula.


A postura brasileira tem sido pragmática mais do que ideológica. Lula já conversou tanto com Zelensky como com Putin. Já “cutucou” o presidente ucraniano e também o presidente russo, afirmando que os dois têm a mesma dose de culpa pela guerra. Afinal, disse Lula, quem não quer a guerra precisa sentar para conversar. E a conversa não pode ser com a parede, mas sim com o outro lado.


Dessa forma, é absolutamente natural que o Brasil não tenha enviado um alto representante para a Cúpula da Suíça, e tampouco tenha assinado a declaração final. O comportamento do Brasil vai ao encontro do de outros países que, ao contrário da Suíça, têm se posicionado de maneira realmente neutra.


África do Sul, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Índia (todos dos BRICS) também se recusaram a assinar a declaração final do encontro, afinal entendem igualmente que nenhuma negociação séria pode ser feita sem a outra parte no conflito, a Rússia. Não querem aderir à pura e simples propaganda que foi tal declaração, assim como a cúpula como um todo.


O resultado foi que, ao contrário de representar um isolamento da Rússia, a Cúpula da Suíça foi uma enorme vitória para Moscou. O tiro de Zelensky e de seus patrocinadores saiu pela culatra.


A própria presidenta da Suíça, Viola Amherd, teve de admitir que a Rússia precisa ser incluída nas negociações. Uma reunião de cúpula unilateral não tem futuro nenhum.


Ao contrário, um encontro em que os russos estejam representados em condições de igualdade com a parte ucraniana é a única forma de obter algum sucesso diplomático. E uma reunião como essa atrairia a mais alta atenção internacional, pois teria a participação dos países que não foram à Suíça ou não aderiram à declaração final.


E esses países são precisamente os líderes do chamado “Sul Global”, ou seja, da maioria mundial que constituem os países historicamente oprimidos pela minoria americano-europeia. Essa maioria não está interessada na continuidade da guerra para o enfraquecimento da Rússia, ao contrário da minoria.


O governo Zelensky parece ter entendido que o caminho escolhido até agora não levou a lugar nenhum – nem mesmo para os interesses da Ucrânia e de seus aliados. A Rússia só se fortaleceu desde 2022, não o contrário. O suposto isolamento russo diante da “comunidade internacional” não passa de retórica propagandística.


“Nós achamos que será possível convidar um representante da Rússia”, disse Andrey Yermak, chefe do gabinete presidencial ucraniano, referindo-se a uma nova cúpula, “mais representativa”, que tenha como meta “o fim da guerra e a resolução da crise”.


Fica cada vez mais claro que o único caminho viável são negociações do tipo proposto por Brasil e China, que declararam conjuntamente a necessidade de uma reunião em que todas as partes da guerra estejam plenamente representadas em igualdade de condições.


Uma cúpula como essa, mais possível do que nunca, seria uma vitória histórica da diplomacia brasileira e projetaria a influência do Brasil de uma maneira sem precedentes. Todos os países realmente neutros – a maioria global – estão de acordo com uma proposta igual à sino-brasileira. E aos países promotores da guerra (EUA e Europa) já não resta praticamente mais nenhuma alternativa: sentar para negociar com a Rússia ou aprofundar a própria crise com a manutenção da guerra na Ucrânia, que a Rússia está vencendo.


O Brasil está claramente na vanguarda dos países pobres, e neste cenário isso significa que é mais protagonista que os países ricos no âmbito diplomático. Os setores mais dependentes dos Estados Unidos dentro do país sempre atacaram a iniciativa brasileira pela paz na Ucrânia, ressoando os incômodos da Casa Branca e do Pentágono com a postura soberana do Brasil. Essas ideias devem ser rechaçadas de modo contundente, pois são um atraso enorme com relação à política que o presidente Lula está tentando levar adiante, e que está se demonstrando absolutamente exitosa.


Utilizando o vocabulário geopolítico, o Brasil tem todas as condições de se tornar um player global de primeira ordem se mantiver essa postura soberana.


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Eduardo Vasco é jornalista.

POLÍTICA