O Vazio Também Vota
- Jornal Daki
- há 8 horas
- 3 min de leitura
Por Mira Pimentel

Hoje sentei diante da folha em branco e, pela primeira vez em muito tempo, não encontrei um assunto. O vazio existencial pediu licença para entrar.
Mas talvez esse seja justamente o assunto.
Vivemos um tempo em que os acontecimentos são tão intensos que já não conseguimos distingui-los da propaganda. A verdade passou a disputar espaço com versões cuidadosamente embaladas para agradar torcidas.
Ontem, confirmou-se mais um capítulo da guerra comercial entre Estados Unidos e Brasil, com a manutenção de novas tarifas sobre produtos brasileiros. As justificativas oficiais falam de comércio, concorrência e práticas econômicas. O governo brasileiro afirma que há forte componente político nessa decisão. Entre documentos oficiais e discursos, sobra para o cidadão comum aquilo que sempre sobra: a conta.
Enquanto líderes trocam acusações, quem produz, trabalha, exporta e consome continua esperando que alguém governe para pessoas, e não para disputas de poder.
A política brasileira tornou-se um estádio. De um lado, uma torcida. Do outro, outra torcida. E, no meio do campo, a população continua sem arquibancada coberta.
Esquerda. Direita.
Palavras que, muitas vezes, deixaram de representar projetos de sociedade para representar identidades apaixonadas.
A História, porém, é mais séria do que as redes sociais.
Existem países socialistas que conseguiram construir indicadores importantes em áreas como saúde e educação, ainda convivendo com limitações econômicas e restrições políticas. Existem também países de economia liberal que alcançaram elevado desenvolvimento, enquanto outros convivem com profundas desigualdades sociais.
Nenhuma ideologia, por si só, absolve governos de seus erros nem garante justiça aos seus cidadãos.
Os arquivos da História não pertencem às torcidas.
Pertencem aos fatos.
O que me preocupa é perceber que, enquanto discutimos quem venceu o debate, escolas continuam precisando de investimento, hospitais aguardam recursos, trabalhadores esperam salários dignos e famílias fazem contas para colocar comida na mesa.
O Estado foi criado para servir à sociedade.
Quando passa a servir aos grupos políticos, perde sua razão de existir.
No atual cenário brasileiro, as relações entre integrantes da família Bolsonaro e autoridades americanas tornaram-se parte do debate público.
Seus apoiadores afirmam que buscam denunciar violações institucionais; seus críticos entendem que essas iniciativas colocam interesses políticos acima dos interesses nacionais. São interpretações diferentes sobre os mesmos acontecimentos, e cabe à sociedade julgá-las à luz dos fatos e da Constituição.
No fim das contas, o imposto não pergunta em quem você votou.
A inflação não distingue esquerda de direita.
O desemprego não consulta partido.
A dor econômica chega democraticamente.
E termino lembrando, com certa ironia, das tantas cartas que a política produz.
Cartas abertas.
Cartas públicas.
Cartas aos brasileiros.
Cartas de pai para filho.
Talvez a carta mais importante ainda esteja por ser escrita.
Não de um pai para um herdeiro político.
Mas de uma geração para a próxima.
Uma carta dizendo que aprendemos, finalmente, que nenhum projeto de poder pode valer mais do que um país inteiro.
Porque, quando a política transforma a nação em herança de família ou em patrimônio de partido, deixa de existir República.
E sobra apenas o espelho de nossas próprias vaidades.
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Mira Pimentel é cronista.












































