Depois da Copa
- Jornal Daki

- 9 de jul.
- 2 min de leitura
Por Mira Pimentel

Durante alguns dias fomos um só coração.
Milhões de brasileiros pararam diante da televisão. Abraçaram desconhecidos, sofreram juntos, comemoraram juntos. Não perguntamos em quem o outro votou. Não importava sua religião, sua profissão, sua renda ou a cidade onde morava.
Éramos apenas uma torcida.
A Copa terminou.
Mas seria um desperdício deixar morrer essa capacidade tão bonita de desejar, em uníssono, a vitória de alguma coisa.
Agora precisamos torcer por outras copas.
Pelas copas das árvores, que refrescam nossas cidades, purificam o ar e acolhem os pássaros que insistem em cantar acima do barulho das nossas pressas. Que elas sejam mais numerosas do que o concreto que insiste em ocupar todos os espaços.
Precisamos torcer para que nenhuma criança tenha a infância roubada pela fome ou pela violência.
Torcer para que o idoso seja respeitado antes de ser lembrado.
Torcer para que os animais encontrem em nós a compaixão que tantas vezes lhes falta.
Torcer para que quem vive nas ruas reencontre não apenas um teto, mas a própria dignidade, porque ninguém escolhe sonhar com uma calçada.
Torcer para que a escola forme cidadãos antes de formar estatísticas.
Torcer para que a saúde não seja um privilégio, mas um direito vivido todos os dias.
Torcer para que o alimento chegue à mesa sem pesar tanto no bolso. Para que a conta de luz não apague sonhos. Para que a água continue sendo fonte de vida, e não motivo de preocupação.
Para que o deslocamento até o trabalho não roube horas preciosas da convivência com quem amamos.
E precisamos torcer pela política.
Não por partidos, mas por princípios.
Que quem se candidate a um cargo público compreenda que promessas não são peças de propaganda; são compromissos assumidos diante de uma população inteira. Que existem mecanismos cada vez mais eficazes de acompanhamento, transparência e responsabilização, para que o mandato seja exercido com seriedade e respeito ao eleitor.
A democracia não termina quando fechamos a urna.
Ela começa ali.
O voto escolhe.
A cidadania acompanha.
Talvez a maior vitória que possamos conquistar seja entender que o país não melhora quando uma torcida derrota outra. Melhora quando descobrimos que existe uma camisa maior do que qualquer partido: a do bem comum.
Que a Copa tenha acabado apenas nos gramados.
Que permaneça viva em nós a coragem de torcer pelo que realmente importa.
Torcer pela igualdade sem apagar as diferenças.
Pela justiça sem perder a ternura.
Pela liberdade acompanhada da responsabilidade.
Pela honestidade como regra, e não como exceção.
Pela humanidade de ser.
Porque, no fim, nenhuma taça será maior do que a alegria de ver um povo vencer a si mesmo.
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Mira Pimentel é cronista.








































































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