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Depois da Copa

Por Mira Pimentel

 

Arte Jornal Daki com IA
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Durante alguns dias fomos um só coração.


Milhões de brasileiros pararam diante da televisão. Abraçaram desconhecidos, sofreram juntos, comemoraram juntos. Não perguntamos em quem o outro votou. Não importava sua religião, sua profissão, sua renda ou a cidade onde morava.


Éramos apenas uma torcida.


A Copa terminou.


Mas seria um desperdício deixar morrer essa capacidade tão bonita de desejar, em uníssono, a vitória de alguma coisa.


Agora precisamos torcer por outras copas.


Pelas copas das árvores, que refrescam nossas cidades, purificam o ar e acolhem os pássaros que insistem em cantar acima do barulho das nossas pressas. Que elas sejam mais numerosas do que o concreto que insiste em ocupar todos os espaços.

Precisamos torcer para que nenhuma criança tenha a infância roubada pela fome ou pela violência.


Torcer para que o idoso seja respeitado antes de ser lembrado.


Torcer para que os animais encontrem em nós a compaixão que tantas vezes lhes falta.

Torcer para que quem vive nas ruas reencontre não apenas um teto, mas a própria dignidade, porque ninguém escolhe sonhar com uma calçada.


Torcer para que a escola forme cidadãos antes de formar estatísticas.


Torcer para que a saúde não seja um privilégio, mas um direito vivido todos os dias.


Torcer para que o alimento chegue à mesa sem pesar tanto no bolso. Para que a conta de luz não apague sonhos. Para que a água continue sendo fonte de vida, e não motivo de preocupação.


Para que o deslocamento até o trabalho não roube horas preciosas da convivência com quem amamos.


E precisamos torcer pela política.


Não por partidos, mas por princípios.


Que quem se candidate a um cargo público compreenda que promessas não são peças de propaganda; são compromissos assumidos diante de uma população inteira. Que existem mecanismos cada vez mais eficazes de acompanhamento, transparência e responsabilização, para que o mandato seja exercido com seriedade e respeito ao eleitor.


A democracia não termina quando fechamos a urna.


Ela começa ali.


O voto escolhe.


A cidadania acompanha.


Talvez a maior vitória que possamos conquistar seja entender que o país não melhora quando uma torcida derrota outra. Melhora quando descobrimos que existe uma camisa maior do que qualquer partido: a do bem comum.


Que a Copa tenha acabado apenas nos gramados.


Que permaneça viva em nós a coragem de torcer pelo que realmente importa.


Torcer pela igualdade sem apagar as diferenças.


Pela justiça sem perder a ternura.


Pela liberdade acompanhada da responsabilidade.


Pela honestidade como regra, e não como exceção.


Pela humanidade de ser.


Porque, no fim, nenhuma taça será maior do que a alegria de ver um povo vencer a si mesmo.

 

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Mira Pimentel é cronista.

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