É na simplicidade
- Jornal Daki
- há 7 horas
- 3 min de leitura
SÃO GONÇALO DE AFETOS
Por Paulinho Freitas

Parei com o carro no semáforo na frente da Igreja Matriz de São Gonçalo. As obras de restauração estão a todo vapor, a igreja vai voltar a sua forma original, na cor branca, sem aqueles azulejos horrorosos. Acho que vai ficar linda.
Me distraí. O sinal abriu e demorei uns segundos para sair. O motorista que estava atrás de mim descansou as mãos na buzina, jogou o carro para a esquerda e passou por mim como uma flecha, apontando o dedo anelar para cima em sinal de xingamento. Eu, mantive a calma e não rebati. Limitei-me a olhar para frente.
O que ele também deveria ter feito, pois quando ele se virou, deu de cara com a traseira de um caminhão parado na porta do Hortifruti. O carro dele ficou bem amassado e o compromisso que ele deveria ter ficou esperando por ele. Arrogante, prepotente se achando dono das ruas. Deu ruim.
Depois de deixar o carro no estacionamento ali na entrada do Boassu, segui em direção ao centro. Os “Mendigatos” , aquele casal de moradores de rua que todos admiram pela beleza estavam ali pelas redondezas, bebendo uma garrafinha de cachaça e conversando educadamente como um casal de aristocratas numa colcha estendida no chão, a garrafinha no meio e cada um com um copo as mãos, com uns dois dedos de cachaça dentro. Achei a cena digna de uma pintura ou de um poema.
Passei pelo bar Ferreirinha, um dos bares mais antigos da cidade, aquele frango assado faz a gente pensar num pãozinho quentinho, só para comer com o cheiro. Atravessei a antiga Praça da Mariza, hoje praça do Obelisco e cheguei ao Rodo Shopping. Pedi um café e fiquei olhando as pessoas passando.
Uma senhora do meu lado também tomava café e falava sozinha. Dizia ter Alzheimer e que às vezes não lembra a senha do banco, nem o caminho de casa e achava engraçado ter os familiares à sua procura enquanto ela toma café e brinca de pique esconde feito uma criança. Ela está contente e se achando linda com uma sandália preta, de couro e tiras num pé e no outro, um sapatinho fechado, amarelo. As meias também eram super diferentes. Um lenço no pescoço emprestava uma elegância só dela.
Tomei meu café e no caminho de volta, passa por mim o caminhão do lixo. Dá uma meia parada e os rapazes que coletam o lixo pulam e vão jogando os sacos para dentro do caminhão em movimento. Depois, sobem de novo no caminhão que acelera, cantão funk e balançam a raba sob os olhares sorridentes do pessoal das lojas.
Passo no sacolão, compro uvas e morangos, o preço estava bom. Um senhorzinho simpático e com cara de feliz entra, pega uma banana, descasca e sai comendo como se a tivesse tirado da fruteira de sua casa.
Pego o carro e vou para casa almoçar. No caminho lembro do cara lá do sinal. Um carrão lindo, bem vestido, certamente bem resolvido financeiramente, completamente infeliz e mal-humorado, enquanto os menos favorecidos, mesmo com pouco ou nenhum recurso, com sacrifício para conseguir o pão de cada dia, dão aula de como ser muito feliz com tão pouco.
É como eu sempre digo e canto:
“.... É na simplicidade que a felicidade se faz. ”
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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.












































